31 agosto 2009

Sei lá onde é que ele está!

Esta palavra foi para mim uma das mais tristes que ouvi em anos de ministério pastoral. A incerteza manifestada foi de uma pessoa cujo marido falecera poucos dias antes. Ambos eram idosos e eram membros, baptizados recentemente, da nossa igreja. Um dia fomos visitar o casal. A senhora atendeu e perguntámos pelo marido. Disse-nos que tinha falecido dias antes e que o funeral tinha sido católico.
Tentei conter a tristeza que senti por ela nem sequer nos ter contactado. E disse algumas palavras no sentido de ela ter, da parte do Senhor, a consolação de saber que o seu marido agora estava com Ele. E a sua resposta foi esta: “Sei lá onde é que ele está.....!”.
Dificilmente conseguimos manter a conversa a seguir: tivemos uma vontade enorme de desaparecer logo para podermos chorar, em outro lugar, a falta de convicções ..... de pessoas que diziam ter abraçado a fé evangélica.
Ainda não vivíamos na época das igrejas «grandes», intituladas carismáticas, que, regra geral, não incluem na sua lista de convicções doutrinárias a certeza que o crente pode e deve possuir da sua salvação eterna, a partir do momento em que se arrepende dos seus pecados e aceita Jesus como Salvador e Senhor....
Agora, em retrospectiva, parece-me que, mesmo assim, a nossa igreja tinha estado a «crescer», em parte, com base em pessoas que não compreenderam verdadeiramente a doutrina da salvação. Depois ela não pôde continuar neste processo de «crescimento», porque outros vieram, com aparência de maiores milagres, para pregar a mensagem truncada de «salvação» sem segurança.
Outra senhora recém baptizada, quando a conheci pela primeira vez, apresentou-se como «uma alma salva pelo Pt. X....» Não me atrevi a dizer o óbvio... que teria sido melhor ela ter sido salva por Jesus. Visitámo-la várias vezes, mas para ela igreja sem Pt. X. não era igreja.....

É preciso, obviamente, ter algum cuidado com aquilo que digo aqui. Não estou a afirmar que o meu antecessor, sendo baptista e de convicções doutrinárias conservadoras, tenha pregado a tal doutrina truncada (que depois outras igrejas adoptaram por método). Também não creio que o seu esforço notável na evangelização tenha sido em vão. Pelo menos duas pessoas convertidas nessa altura tornaram-se depois membros dedicados da igreja com uma acção evangelística muito significativa... (apesar de uma delas posteriormente ter sido aliciada para se afastar da igreja). E acredito que haverá muito mais «fruto» genuíno do trabalho do meu colega que se verá no dia do Senhor.
Nem estou a dizer que o nosso trabalho evangelístico tenha sido melhor. Somos bastante menos dotados nessa área e a nossa atenção principal teve que ir para outras áreas. E também terminámos por baptizar algumas pessoas que, posteriormente, vimos que não tinham compreendido bem o significado desse passo..
A minha queixa é mais acerca da maneira como costumamos falar no crescimento numérico da igreja, contabilizando baptismos, e medindo o valor do nosso trabalho desta maneira. Pelo menos deve ser uma preocupação séria, cada vez que ajudamos uma pessoa a dar este passo,... que tenha compreendido bem Quem é o seu Salvador e qual é a salvação que Ele oferece.

27 agosto 2009

Ora são vocês... ora somos nós

O padrão repete-se nos países democráticos: ora P.S. ..... ora P.S.D., ora trabalhistas, ora conservadores. Pode haver uma Thatcher ou um Blair que se mantenham mais algum tempo .... mas chega o dia em que o povo reclama a mudança.
Cedo no meu ministério pastoral tive que considerar a validade deste modelo de poder ...... dentro de uma igreja. Só que com uma diferença. Os dois «partidos» não tinham nomes como os partidos têm: eram blocos familiares que se ocupavam alternadamente do trabalho da Escola Dominical, por exemplo, mas nunca os dois ao mesmo tempo.
O pastor não fazia parte de nenhum destes blocos. Para ele ter sido chamado – também por voto democrático – tinha que, de alguma maneira, ter reunido o acordo dos dois blocos. Ou podia não ter havido grande alternativa ... e era chamado mesmo assim (como pode ter sido o caso comigo!). Depois o pastor tinha que aceitar o modelo do poder alternado, tentando manter um equilíbrio difícil, «deitando água na fervura» nas alturas de maior conflito.
O seu papel também era presidir em reuniões deliberativas, habitualmente tempestuosas. Mas não era ele que dava linhas de orientação – mesmo sobre questões de fundo. Era apenas o «presidente da mesa» (estava obrigado a isso pelos estatutos). Quando muito podia «elaborar propostas» para a Junta Administrativa considerar e era esta que, se concordasse, as apresentava à igreja: só que a Junta tendia a ter elementos de ambos os blocos e dificilmente sairia de um corpo tão anómalo alguma orientação de fundo que tivesse interesse.
Aqueles que pretendiam forçar as suas posições – ou que, sendo criticados, pretendessem defender-se - geralmente faziam-no pedindo demissão das suas funções e voltando depois a elas (para “salvar o barco” em momentos de crise), deixando de dar os seus dízimos durante meses seguidos (para o pastor ter que lhes perguntar qual era o problema) ou deixando mesmo de ser membros da igreja (porque depois, a seguir a uma crise mais profunda que inevitavelmente havia de surgir, podiam voltar).
Quando havia questões delicadas que precisavam de ser votadas nas reuniões de igreja, podia haver um trabalho intensivo, junto aos membros mais moderados ou menos prevenidos, para tentar granjear votos. Assim foi, por exemplo, quando faltava um presidente para a União de Homens (grupo este que não existia de facto – mas como o seu «presidente» tinha assento na Junta, alguém tinha que ser eleito!).
Uma das tónicas no meu ensino, nos primeiros tempos, teve que ser que a igreja é em primeiro lugar uma teocracia, mais do que uma democracia. Por não ter uma natureza autocrática, não tendia, como alguns pastores talvez tendam, a cair no erro de confundir a teocracia com o governo da igreja pelo pastor.
Ensinava o envolvimento de todos os crentes nas decisões da igreja (como parte do seu sacerdócio).
Mas a democracia, nos termos que se pretendiam, não me convencia.....

22 agosto 2009

RETALHOS DA VIDA DE UM PASTOR (1)

Consagrado pastor! Com 40 anos!
Sem dúvida a alegria que senti em 15 de Junho de 1991 foi muito grande... para mim e para a minha esposa e (creio) para os meus filhos.
Não sabia aonde iria ser chamado a servir – mas alguns membros da Igreja de Caldas da Rainha estiveram presentes no culto de consagração em Coimbra. Estavam a precisar de um pastor....
Só que eu tinha feito uma ressalva para mim: que Deus não me chamasse para uma igreja que tivesse um projecto de construção de novo templo....
Por outro lado, eu disse que estava disposto a seguir para onde o Mestre chamasse!
Já vi em vários lugares que o “sentido de humor” de Deus é assim. Quando usamos a palavra “excepto...”, é para essa excepção que Ele tende a levar-nos.
Pensámos bem no significado do nosso compromisso e, apesar do “excepto”, aceitámos o convite que a igreja de Caldas nos dirigiu.

O meu antecessor em Caldas, missionário brasileiro, tinha feito um trabalho esforçado na área da evangelização e também tinha montado uma campanha para o levantamento de fundos para o novo templo, um projecto esplêndido para um espaço que ficava ao pé da Universidade. Inspirada na campanha de Gedeão, em Juizes 6 a 8, era a «Campanha dos 300 Valentes». Como a igreja, na sua lista de membros, tinha menos de 100 membros, a ideia aparentemente era interessar outros – para aumentar a lista dos «valentes» até aos 300. Homens de negócios da cidade, familiares, irmãos de outras igrejas... iriam aumentar as fileiras – até chegarmos aos 300....! E quem sabia se o crescimento numérico da igreja, seguindo no ritmo da altura, não iria em pouco tempo chegar a esse objectivo, mesmo sem contar com os outros?

Só que era uma igreja em que muitas das pessoas não se entendiam. Logo nos primeiros dias recebemos visitas formais de membros, muitas vezes com generosas ofertas de alimentos, mas que em vários casos tinham o objectivo discreto de nos prevenir contra certos outros membros em quem não se podia confiar.... Dentro de pouco tempo, diziam as pessoas em cada grupo, iríamos perceber por quê!

E, nos cultos, muitos dos quase 100 membros já “brilhavam” pela ausência!

Para me sintonizar com o espírito da Campanha dos 300 Valentes, comecei a pregar uma série de mensagens sobre a história de Gedeão. Fiz rapidamente uma descoberta bastante relevante. O número «300» no texto bíblico não é o resultado final de um projecto de crescimento (nem muito menos da integração de outros elementos de boa vontade para aumentar o número do exército de Israel): é o resultado final de um projecto de selecção, sendo escolhidos por Deus apenas aqueles que O amam e servem de coração.

Começámos a pensar: «será que há 30 que reúnem estas condições?»

19 agosto 2009

Fruto


«Cristo ..... a quem anunciamos, admoestando a todo o homem, e ensinando a todo o homem, em toda a sabedoria, para que apresentemos todo o homem perfeito em Jesus Cristo», Col. 1:27-28.



Num domingo de manhã duas estudantes húngaras, a Ester e a Sofia, que não são evangélicas, visitam a igreja baptista em Caldas da Rainha e participam num almoço no «Canto da Rola», mas sem a presença dos responsáveis (Alan e Celeste), uma vez que estes estão em férias. No dia seguinte elas sofrem um acidente de automóvel com o Andrew, com o Artur (marido da organista da igreja) e com a Mattie (filha da organista) a conduzir. O Andrew sofre várias fracturas da bacia, de algumas costelas, da omoplata e da clavícula; a Ester e a Sofia sofrem fracturas da bacia e o Artur das duas pernas. Só a Mattie não tem feridas.

Durante mais de 15 dias, e antes de poderem regressar ao seu país, a Ester e a Sofia recebem visitas diárias no hospital de membros da igreja e de outros amigos. O Artur também recebe. Durante 5 semanas o Andrew, internado no Hospital de Santa Maria, recebe visitas todos os dias sem falhar, de familiares, de crentes residentes em Lisboa e de membros da igreja das Caldas que se deslocam a propósito.

Já há bastante tempo que tenho a impressão que o nosso hábito de avaliar as nossas igrejas quantitativamente (número de membros, número de baptismos celebrados anualmente, etc.) é o resultado de uma obsessão errada. Não será mais importante ainda a marca do cristianismo genuíno que Jesus apontou em João 13:35:

«Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros»?

O amor que a comunidade tem para dar extravasa: não é só para os seus membros. Neste caso duas pessoas estrangeiras que são quase «adoptadas» por uma igreja nem sequer são crentes evangélicos. É este amor que ocupa o primeiro lugar na lista que descreve o fruto do Espírito em Gálatas 5:22.

Quando aos 40 anos fui consagrado pastor, defini sempre como os meus objectivos ensinar e acarinhar a igreja local para que ela desse este fruto. Manifestamente privilegiei o objectivo da qualidade mais do que a da quantidade. A nossa igreja ainda tem muito mais por realizar: mas sinto que está claramente no caminho certo.

Como a igreja nem sempre foi assim, e como o percurso que levou até este ponto foi complicado e (como todas coisas na vida) envolve aspectos tristes e outros cómicos, tive recentemente a ideia de partilhar alguns momentos vividos com os leitores do blogue. Sem dramatizar. E sem que ninguém mencionado seja condenado por aquilo que fez (ou por aquilo que eu, na minha interpretação, julgo que fez!).
Aqueles que não tiverem passado já para a presença do Juíz que sabe todas as coisas (e alguns passaram) naturalmente ainda terão as suas oportunidades para se corrigirem e para crescerem.
Como eu também espero ter!

17 agosto 2009

Muletas

Este blogue não foi concebido essencialmente para tratar de questões de família! Mas a última vez que escrevi foi para descrever um passeio com o Andrew à Ilha da Berlenga. E, depois, o Andrew (como muitos sabem) teve um acidente.... Parece que é um membro da família cuja presença no blogue se está a impor! Ainda por cima, não escrevi durante seis semanas por causa de toda esta situação.

A fotografia em cima é para vos mostrar uma forma de apoio que ele não precisou de usar.

Aproveito primeiro para transmitir desta forma os nossos agradecimentos a Deus pela maneira como preservou o Andrew e mais quatro amigos de consequências mais graves ou permanentes... apesar de quatro do grupo terem sofrido fracturas da bacia e outras fracturas e traumatismos.

E, em segundo lugar, para agradecer a dezenas e dezenas de amigos que visitaram, telefonarem, mandaram E-mails e oraram por ele e por nós. Sei que isto inclui vários que também são leitores do blogue.

Disseram numa altura que era preciso arranjar «muletas axilares» (que não devem ser confundidos com canadianas) para uma fase da sua recuperação. Duas lojas de ortopedia em Caldas – e mais dez em Lisboa..... nenhuma tinha para uma pessoa com 1,93 metros! Cheguei de volta ao Hospital de Santa Maria, cheio de calor e frustrado por não encontrar as muletas ... e o Andrew disse que o tinham aconselhado afinal a não usar!

Agora está em casa e esteve duas vezes na igreja, para o espanto dos irmãos que se tinham empenhado tanto em apoiá-lo (e aos outros). E, para ir até lá, nem sequer precisou de usar uma canadiana!

A história das muletas lembraram-me uma polémica de alguns anos atrás - em Inglaterra. Era hábito dizer que «Deus» era uma «muleta» para pessoas com fraquezas e limitações que não tinham a autonomia suficiente para resolver os seus problemas sozinhos.

Quando surgem experiências como esta que nos aconteceu vejo cada vez mais claramente que Deus é Quem dirige tudo e faz sentido de tudo. É o Soberano que dá a vida, retira-á, poupa a vida de acidentados quando assim entende, de acordo com os Seus propósitos de justiça e amor, usa médicos e fisioterapeutas, opera milagres (com ou sem os recursos médicos), dá ao corpo humano uma capacidade extraordinária de recuperar - e, não menos, dá-nos o apoio uma família extraordinária cristã. Se depender destes factores todos é recorrer a «muletas», não vou fazer de conta que sou forte! É que, dependendo deles, tenho tudo o que preciso para viver!



30 junho 2009

Berlenga e gaivotas



Do «Canto da Rola» até a Ilha da Berlenga leva vinte e cinco minutos de carro e depois quarenta e cinco de barco. Alguns receios de viajar em barcos (relativamente) pequenos fizeram com que a nossa família não se metesse na aventura de uma ida à ilha, durante os 18 anos desde que moramos na zona de Caldas da Rainha.

Mas algum dia tinha que ser! E a altura foi para celebrar o facto de o Andrew recentemente ter feito 24 anos: o nosso dia (ontem) incluiu até uma refeição no restaurante da ilha.

Os abanões no mar foram razoáveis – mas suportáveis. Fomos informados de que há dias muito piores!

As vistas da ilha; do Forte de João Baptista; das grutas e canais; da impressionante fissura central (Carreiro dos Cações); das «Estelas» e «Farilhões» - que dão vontade de fazer ainda mais outras viagens – são espectaculares. A recomendar a sério! As cinco horas, entre a chegada do barco e a sua partida à tarde, chegam muito bem para dar uma volta à Berlenga e a Ilha Velha.

Mas o que talvez tenha impressionado mais – e não num sentido completamente positivo – foram as gaivotas. Praticamente só conhecia esta ave em situações em que ela se sente em minoria. Quando se junta um número delas, numa ilha só, que (imagino) pode ser comparável ao número total de habitantes humanos de Portugal, coexistindo nesse lugar com um número de seres humanos muito reduzidos, a situação é bem diferente! Estender-nos num canto sossegado, para dormir a sesta, por exemplo, torna-se completamente impossível. Em alguns lugares o cheiro do estrume das gaivotas é insuportável, fazendo lembrar capoeiras enormes.

O comportamento extremamente pacífico que eu associava com esta ave afinal é só uma faceta da realidade! Para conhecer outra faceta não encontrei nada melhor do que a seguinte frase da Wikipedia (tradução minha):

«As gaivotas – e especialmente as espécies maiores - são aves expeditas, curiosas e extremamente inteligentes, que demonstram métodos complexos de comunicação e uma estrutura social altamente desenvolvida; por exemplo, muitas colónias de gaivotas manifestam comportamento amotinador, atacando e acossando todo o predador e outros intrusos».

Quando ouvimos primeiro algumas reacções extremamente frenéticas de parte delas, não nos sentimos assustados. O facto é que estávamos a mostrar alguma curiosidade em ver os seus ovos e as gaivotas recém nascidas - e sabemos que o instinto materno pode alterar o humor de qualquer fêmea!

Isto até ao momento em que fui directamente atacado – na cabeça – por uma delas! Não houve consequências de maior – mas, sem dúvida, foi uma lição sobre o comportamento desta espécie, de que não me irei esquecer!

E, embora me sentisse injustiçado (!), tive que reflectir mais uma vez sobre a relação entre o pecado humano e a criação que geme (Romanos 8:22). Lembrei-me de histórias de pescadores que, em lugares assim, estrelavam os ovos das gaivotas – e da falta de escrúpulos de coleccionadores (como eu, na minha infância!) de ovos das aves.

A maldade humana termina por ser muito mais subtil, variável e devastadora do que as reacções de defesa de outras espécies que por vezes nos atingem.

O dia na Berlenga terminou muito bem. O ataque da gaivota foi só um pequeno episódio passageiro – embora para mim uma surpresa estranha.

Gostava de convidar aqueles dos leitores do blogue que percebem mais do que eu de questões de ecologia a reagirem!

02 junho 2009

ÉTICA: (John Rawls, Robert George e os «consensos por sobreposição»).

Um convite para participar num debate na Faculdade de Medicina, orientado por Manuel Rainho e o GBU (na 5ª feira, 28 de Maio), constituiu para mim um grande desafio para me situar em questões éticas na sociedade pluralista em que vivemos. O debate tinha o título «Terá a Ética Contemporânea Pés de Barro?». Participaram também um professor da Faculdade e o nosso bom amigo Joaquim Rogério.
Vou tentar partilhar uma das conclusões da minha participação. John Rawls (professor em Harvard, falecido em 2002), defensor do liberalismo secular, dizia que, mesmo numa época como a nossa, podemos encontrar «consensos por sobreposição».
A sua ideia é mais ou menos assim:
Escreves num círculo os teus princípios éticos. Um marxista faz o mesmo. E um islâmico. E um humanista. Etc. Etc. Em algumas áreas algumas das convicções sobrepõem-se, apesar das diferenças de postura ideológica. Em algumas áreas ainda há consensos entre todos. É dentro destas áreas consensuais que temos que construir a nossa ética social, numa sociedade pluralista, e fundamentar a legislação.
Para Rawls, a pessoa que tem uma convicção ética que sabe que não é consensual tem que a sacrificar, por importante que seja na sua visão pessoal.
Numa obra recente («Choque de Ortodoxias», ed. Tenacitas, 2008) Robert George (professor em Princeton, nascido em 1955), examina vários dilemas éticos actuais. A sua postura é que existem leis naturais, criadas por Deus, que tornam possível argumentar a ética racionalmente, mesmo para pessoas que não partilham a nossa fé. A sua posição chama-se o «jus-naturalismo». Argumenta que há razões racionais para não liberalizar o aborto ou a eutanásia, por exemplo. Não ignora (e defende!) as razões bíblicas, mas acha que, mesmo sem passagens bíblicas, podemos mostrar o erro de quem pretende seguir estas práticas.
Os seus argumentos são concretos e frescos e, na minha opinião, a maior parte deles são perfeitamente aceitáveis.
O que não se consegue – nem na linha de George, nem na do eticista evangélico - é encontrar grandes «consensos por sobreposição» com Rawls, ou o liberalismo secular que ele representa.
Se, por exemplo, o meu entendimento do casamento, influenciado pela tradição judáico-cristã, afirma que é uma instituição inerentemente heterossexual – uma união intrínseca («uma só carne») - posso tentar encontrar uma área de «consenso por sobreposição» com o eticista secular que, entendendo que o casamento é apenas um contrato, com a instrumentalização da actividade sexual, favorece o casamento «gay».

O «consenso» esboroou-se. Só permanece a incompatibilidade.

Sugeri no debate que, na realidade, é a própria tradição judáico-cristã que permite algum tipo de consenso. Com o católico conservador, Robert George, por exemplo, encontro amplas áreas de sobreposição. Com eticistas não-cristãs que partem, subconscientemente, de uma base judáico-cristã, também ainda posso encontrar algumas.
Com os «eticistas» actuais do liberalismo secular, posso encontrar alguns valores residuais comuns (a importância de não mentir, alguns conceitos gerais de justiça social, por exemplo). Mas, quando chego à maior parte das grandes questões que se debatem hoje, verifico que já não há consenso possível.
Só que, com base na Bíblia e na razão, e com a ajuda de eticistas de valor como Robert George, ainda acho que tenho bases melhores e mais racionais para defender as minhas convicções éticas do que têm o liberalismo secular!

26 maio 2009

O tacto - e a vida genuína

No campo dos meus relacionamentos o tacto é uma virtude que prezo bastante. Sei perfeitamente que, quando preciso de dizer algo que pode parecer duro, há “maneiras e maneiras” de abordar o assunto. Posso conseguir fazer chegar essa mensagem de uma forma delicada e sem ofensa. E posso, até, transmitir algo que em si não tem ofensa nenhuma mas, pela maneira infeliz como o digo, magoar a pessoa.

Não recomendo que deixemos de procurar ser sempre pessoas de tacto.

Mas, em João 5:40-47, há uma passagem curiosa que mostra o outro lado desta questão. É que, na perspectiva de Jesus, há pessoas que primam de tal maneira pelo tacto que deixam de dizer – e até mesmo de acreditar – naquilo que é essencial. Jesus contrasta a sua própria postura («Eu não recebo glória dos homens») com a dos judeus que o estão a perseguir («Como podeis vós crer, recebendo honra uns dos outros, e não buscando a honra que vem só de Deus?»).

Na sociedade humana temos uma tendência de pautar as nossas acções por aquilo que o outro pode pensar. Há pessoas que, sendo convidadas para assistir a um culto evangélico, aceitam só se for em outra terra sem ser a sua, «por causa daquilo que os outros podem dizer». Quando, como crentes, temos uma crítica construtiva a apresentar a alguém – e a frontalidade exige que não deixemos de o fazer – muitas vezes falhamos, «porque os outros podem não achar bem».

Nas suas mensagens o pastor tem que ensinar, com base na Palavra de Deus, aquilo que as pessoas precisam de ouvir. Mas, em certos meios, ai dele se disser algo demasiado específico e algum irmão o entender como crítica directa. Já ouvi dizer, com um certo humor, que pregar a uma congregação é encarado como atirar frechas – mas sempre com o cuidado de errar ligeiramente o alvo. Se atingirmos mesmo o alvo, alguém vai-se sentir magoado e vai tomar medidas para deixar de nos ouvir – ou, o que é pior, para nos retirar a oportunidade de pregar! Mas lembremo-nos que a palavra grega traduzida por «pecado» no Novo Testamento tem exactamente este sentido de «errar o alvo». Onde é que isto coloca o pregador que é sempre tão cuidadoso?

No meio cristão, agir para receber “honra uns dos outros” é uma autêntica armadilha. Quantas reuniões e conversas se realizam para esclarecer outros irmãos sobre qual era realmente a nossa intenção ao agirmos como agimos? Vamos esclarecer para uns e depois - como há outros crentes cuja maneira de pensar é bastante diferente – a nossa primeira reunião exige uma segunda para esclarecer aquilo que estes outros podem ter ouvido que dissemos aos primeiros! E assim sucessivamente. Não estou a dizer que não possa, por vezes, ser necessário termos estes cuidados. Mas chega o momento, acho eu, em que devemos ter a coragem de assumir as nossas convicções – diante de Deus – e seguir com o curso de acção que em convicção consideramos que está certo, independentemente daquilo que os outros podem pensar.

Se não tivermos esta coragem, dificilmente poderá ser considerado que estamos a viver uma vida «genuína». Às vezes as decisões e actos que são precisos para vivermos esta vida genuína são justificados só diante de Deus. E a nossa tendência é multiplicarmos conversas e reuniões que têm essencialmente o propósito de nos justificarmos a nós mesmos – quando Aquele que nos justifica é o nosso Deus.

Quando a opinião pública prevalecente, dentro ou fora de uma igreja evangélica, está construída de tal forma que a verdade de Deus sobre alguns assuntos de primeira importância não pode ser dita, a procura de “louros” humanos elimina completamente a possibilidade de recebermos “louros” de parte de Deus. Jesus, em João 5:44, pergunta aos seus críticos entre os judeus se alguma vez podem crer, quando mantêm sempre em primeiro lugar esta preocupação.

E eu pergunto-me se uma igreja, que tem o nome de «evangélica», não deixará de o ser quando já não ensina aquilo que a Bíblia diz, por causa daquilo que os homens – os seus membros ou outros – possam pensar.























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12 maio 2009

FUNERAIS

O silêncio do blogue durante mês e meio deve-se, essencialmente, a uma série de funerais que, como sempre, interromperam as nossas actividades e nos envolveram de uma forma intensa com algumas das famílias enlutadas. Seis – num período de sete semanas. Três de pessoas da nossa igreja – e um de uma pessoa de família, o meu sogro.
Em todos os casos foram pessoas cujo testemunho de vida cristã foi convincente – o que permitiu manifestar a nossa convicção de que estão na presença do Senhor e aguardam o dia da Ressurreição, para reinarem em novos céus e nova terra. Só houve um caso em que a pessoa que faleceu não tinha atingido uma idade bastante avançada.

Impressionou-me haver umas centenas de pessoas presentes (em total) nestas ocasiões .... pessoas que assim fizeram uma pausa na sua rotina diária. O que pensará, nestas alturas, uma pessoa que não tem convicções claras acerca da vida além da morte? Será que aquilo que costumamos dizer nestas ocasiões é o suficiente para a pessoa, de uma forma esclarecida, poder vir a conhecer Cristo – na altura ou algum tempo depois?

Surgiu na minha mente uma crítica – espero que seja construtiva – da nossa maneira de estar e de falar, como evangélicos, nestas ocasiões. Num dos funerais o marido da falecida, que também dirigiu o funeral(!), manifestou a sua vontade de que outras pessoas falassem, mas não tanto acerca da sua esposa – dela já se tinha falado – como acerca de Jesus. E deu-lhes essa oportunidade. Mas, mesmo assim, os que falaram disseram mais acerca da falecida do que acerca de Jesus!

Precisamos de ajudar as pessoas não-cristãs (ou superficialmente «cristãs»), que nos acompanham nos funerais, a perceber a diferença que existe entre a esperança do cristão fundamentada na Bíblia – a salvação pela graça – e a esperança vaga que outras pessoas querem cultivar de a pessoa, por ter muitos méritos, ter ganho um lugar junto a Deus. Mas, normalmente somos muito pouco explícitos! Normalmente não anunciamos aos descrentes presentes que, independentemente dos seus méritos e esforços, o que os espera, se não aceitarem Cristo, é uma eternidade fora da presença de Deus. E assim não estendemos um convite para receberem a salvação pela graça, que é dada só e exclusivamente com base nos méritos de Jesus que morreu por nós. Coisas que costumamos dizer, talvez, nos nossos cultos evangelísticos na igreja, onde pode haver poucos descrentes presentes, não nos atrevemos a dizer nos funerais, onde normalmente há muitos!

No funeral do meu sogro, tive o privilégio de pregar (lutando bastante para dominar as minhas emoções), e resolvi falar claramente sobre estes assuntos tão básicos. Disse que acreditava que a morte dele poderia ser uma altura de novos frutos para o Reino de Deus. Para nossa alegria, soubemos depois que uma pessoa (que até hoje não conhecemos pessoalmente) se tinha convertido nessa ocasião!

Mais uma razão para me sentir muito pequeno - mas para sentir, ao mesmo tempo, que estou ao serviço de um Deus muito grande

11 abril 2009

Tomé e o peixe de aquário (um pensamento para o Domingo de Páscoa).

Já ouvi censurar Tomé severamente por ser um homem de dúvida. Mas, mais frequentemente, ouvi elogios ao seu realismo e empirismo: «é corajoso, não se deixa convencer pelo que os outros dizem, quer ter provas, quer pôr a sua mão nas feridas de Jesus, etc.....»
Será que esta atitude de Tomé é realmente louvável? No mundo do empirismo, na tradição do iluminismo, nós sabemos que a dúvida metódica foi transformada num tipo de virtude. No mundo em que eu cresci, quem seguisse só o método científico – quem rejeitasse ou, no mínimo, desconfiasse, de mitos, milagres e do sobrenatural - era elogiado pela sua coragem e honestidade.
Hoje, desconfio que este racionalismo tem qualquer coisa em comum com o peixe no aquário que não consegue crer que exista o mundo fora do aquário, apesar de receber daí o benefício de ser alimentado todos os dias. Poderia ser considerado um modelo de «coragem» - mas, mais provavelmente, deveria ser considerado o protótipo da mente fechada.
John Frye, autor de «Jesus the Pastor» e «Out of Print», diz que é colocar a mente humana como o árbitro de toda a verdade que nos transformou todos em anões. A realidade é demasiado vasta para vestir «só uma bata de laboratório». Diz que a evidência pode ser utilizada algumas vezes como “servo da fé”. Nunca é o “senhor da fé”. Jesus é Senhor da fé e da evidência.
Por isso as palavras de Jesus a Tomé, no texto familiar de João 20:29, em rigor não são nem uma crítica nem um elogio. Jesus não diz: «Gostei da tua honestidade e do teu rigor, Tomé: os teus colegas foram um pouco crédulos a mais». Refere que haverá muitos (e, se somos crentes fazemos parte deste número) que crerão sem terem visto. Refere que estes serão abençoados. Afinal não são estas as pessoas que se abriram para que o Senhor de todo o universo (Senhor da fé e da evidência) as convencesse? Não são os peixes no aquário que, desde o princípio, admitiram que o mundo fora – que não podiam palpar nem ver – deveria existir de facto, sendo evidência disso, no mínimo, os alimentos que recebiam cada dia?
É por isso – e por inumeráveis confirmações posteriores – que não me sinto nem ingénuo nem crédulo quando proclamo com convicção, especialmente no domingo de Páscoa:
«Jesus Cristo ressurgiu!»

08 abril 2009

«Sexta-feira Santa»

Aqui vai um pequeno extracto de um artigo extraordinário, que pode ajudar a viver de uma forma mais genuína aquilo que a chamada «Sexta-Feira Santa» evoca. Encontrei-o no material de «Arauto da Sua Vinda», uma publicação traduzida do inglês «Herald of His Coming», mas que pode muito facilmente ser localizada e apreciada pela Internet, na sua tradução portuguesa.Também é fácil pesquisar a obra de São João da Cruz!


«Levar a sério a Disciplina da solitude significará que em algum ponto ou pontos no curso da peregrinação entraremos no que S. João da Cruz vividamente descreveu como “a noite escura da alma”. A “noite escura” para a qual ele nos chama não é algo mau ou destrutivo. Pelo contrário, é uma experiência a ser recebida com agrado do mesmo modo que uma pessoa enferma receberia com agrada uma cirurgia que promete saúde e bem-estar. A finalidade da escuridão não é castigar-nos ou afligir-nos. É libertar-nos.
Que significa entrar na noite escura da alma? Pode ser um senso de aridez, de depressão, até mesmo o de sentir-se perdido. Ela nos despoja de dependência excessiva à vida emocional. A noção, tantas vezes ouvida hoje, de que tais experiências podem ser evitadas e que devíamos viver em paz e conforto, alegria e celebração, só revela o fato de que muito da experiência contemporânea não passa de sentimentalismo superficial.
A noite escura é um dos meios de Deus levar-nos à tranqüilidade, à calma, de modo que ele possa operar a transformação interior da alma».

24 março 2009

Eu Virtual


Eu virtual - palestra interactiva no Canto da Rola


Sábado, 28 de Março

16h30



John Beswick Pallister
(assessor do GBU)


O virtual rodeia-nos. O virtual faz parte de nós. Será que é real ou não? Algumas vantagens são evidentes; alguns perigos também. Mas como é que a nossa fé se relaciona com um mundo tão volátil?

No post anterior sobre esta palestra, citei a história de um rapaz que ficou assustado com a sua experiência. Aqui vai a continuação (não é indispensável ler a primeira parte).
"Bom, não vou dizer como é que descobri, mas passado algum tempo sentia que havia algo estranho, comecei a ficar um pouco desconfiado, mas odiava-me a mim mesmo por ter dúvidas mas elas estavam lá na mesma. Então investiguei, não só o 'Paul' não tinha morrido, ele nunca tinha sequer existido. o 'Dave' e o 'Paul' eram uma só e a mesma pessoa (...). O Dave tinha gastado bastante tempo e esforço a desenvolver estas duas personagens, um seguro de si e extrovertido, o outro tímido e inseguro. (...) Se as pessoas pudessem perceber como eu era 'íntimo' deles, que bons amigos nos tínhamos tornado, talvez compreendas então porque é que isto foi tão doloroso para mim. Onde quero chegar é que devemos ter cuidado em quem é que confiamos na net, as únicas amizades genuínas que podes ter a certeza que são genuínas são as que também acontecem no 'mundo real'. (...) Não me passa pela cabeça que NINGUÉM é genuíno na net mas sê cuidadoso porque nunca sabes mesmo com quem é que estás a 'falar'."

Então, real ou virtual?

No Sábado, o encontro não é virtual.

16 março 2009

Joab: o fracasso de um «super-dotado».

Todos temos visto «super-dotados» a surgirem entre nós. Em alguma área percebem mais do que os outros. Pode ser na matemática ou nas línguas; na filosofia ou na música; podem ter alguns retalhos de «cultura geral». Podem até ser estrategas militares, como Joab - mas hoje já há menos tendência para isso!

Estes «super-dotados» costumam ser uma presença crítica em todos os momentos. Temo-los visto nas classes da Escola Dominical, por exemplo. Quando se está a falar nos assuntos básicos da fé, ficam «enjoados»: mas, quando se fala sobre temas da actualidade, acham que a conversa é pouco actual ou científica. Interiormente ressentem furiosamente qualquer tentativa de um professor ou pastor querer saber como é que vai a sua relação com Deus – mas têm bastante jeito para usar ironias que permitem fugirem ao incómodo do desafio.

Muitas igrejas evangélicas não conseguem lidar com o embaraço da presença de elementos que se consideram, ou são considerados «super-dotados».Provavelmente a melhor lição que alguém poderia dar a estes seria mostrar com argumentos sólidos que são bastante «infra-dotados» em alguma outra área, sem ser naquela da sua especialidade! Mas normalmente ninguém tem coragem para lhes dar uma lição destas...

Joab é uma pessoa desse tipo. Como chefe do exército, tem um currículo impressionante de sucessos brilhantes. Às vezes tem também a lucidez e a coragem para repreender, e com razão, o próprio rei David: considera 2 Sam. 19:5-7, por exemplo. É ele que consegue o que parece impossível – a reconciliação do rei com o seu filho, Absalão.

Mas reconcilia o filho com o pai - e depois termina por matar o filho! Quando David manda a todos terem misericórdia de Absalão mas este fica pendurado pelo seu cabelo num carvalho, Joab é quem o mata a traição. E, como em última análise gosta mais de si próprio do que do rei, ou mesmo de Deus, ocupa os seus últimos dias num complot, ao lado de Adonias, contra David e Salomão (cf. 1 Reis 2).

Termino com uma observação traduzida da «Life Application Bible», que me parece dizer quase tudo:
«A vida de Joab ilustra os resultados desastrosos de não termos nenhuma fonte de direcção fora de nós próprios. O génio e o poder são auto-destrutivos sem a orientação de Deus. Só Deus nos pode dar a direcção que precisamos. Por essa razão, Ele tornou disponível a Sua Palavra, a Bíblia, e está disposto a estar presente pessoalmente na vida daqueles que admitem a sua necessidade dEle».

Aqui, na minha opinião, foi dito quase tudo. Diria que o crente, e de maneira especial aquele que tem dons excepcionais em alguma área, precisa de ter um mentor espiritual também. Uma pessoa que tenha a paciência para o ouvir quando está a falar acerca do que percebe e que tenha a frontalidade para o repreender muito directamente quando está a tentar ser a sua própria «fonte de direcção». Sobretudo quando ele quer falar acerca de coisas que percebe pouco – mas que podem ser na realidade as mais importantes da vida.

Para os «super-dotados» que têm um mentor assim, torno-me mais optimista!

04 março 2009

Eu virtual - mais uma palestra no Canto da Rola



O 'chavalinho' no barril é real ou virtual?


Eu nunca fiz uma declaração de IRS em papel - foi sempre pela internet. Mas no ano passado aconteceu algo ainda mais interessante: recebi o reembolso por transferência bancária e descobri na internet, no site do meu banco.
(Só mais tarde é que recebi uma carta de papel com os detalhes.)

As minhas declarações de IRS e o reembolso são reais ou virtuais?


"Fiquei bastante amigo de dois rapazes [que conheci na internet]. Ajudei-os a ultrapassar alguns problemas, e vice-versa. Na altura do natal, fui à net para desejar bom natal ao pessoal, tinha uma mensagem do Dave, que me disse que o Paul tinha morrido num acidente de carro. ele estava de rastos. eu também, chorei durante dias, se já tiveste uma relação ‘próxima’ com um amigo na net sabes como é que é ouvir notícias assim pode doer que se farta. Passei as semanas seguinte a tentar confortar o Dave, dando o melhor para ser um amigo para ele enquanto ele sofria tanto." (2003)

Este sofrimento é real ou virtual?




As coisas parvas que se fazem na internet... Mas aquele grito é real ou virtual?



Estas e outras perguntas vão ser debatidas na seguinte palestra:


Eu Virtual

Sábado, 28 de Março

16h30

John Beswick Pallister
(assessor do GBU)

28 fevereiro 2009

O SENHOR LHE DISSE: «AMALDIÇOA A DAVID....»

Depois do «presente envenenado», David apanha pedras (ver 2 Samuel 16:5-14). Poder-se-ia considerar a questão de qual destas duas «ofertas» é pior.
O atirador das pedras, Simei, afirma que Deus está a dar a David a paga do sangue da casa de Saúl que derramou. Com alguma justiça Abisai, amigo do rei, diz que é um «cão morto» e que a melhor solução será tirar-lhe a cabeça. Ao lermos isto tendemos a concordar com Abisai.
Uma coisa está certa: não é verdade que Deus esteja a usar Absalão para que o sangue da casa de Saúl seja vingado. Foi Deus que outrora dirigiu David, por diversos métodos, alguns deles muito pacíficos, a atingir essa vitória. Então, será que David agora está a ser vítima de um falso sentimento de culpa? Qualquer «conselheiro espiritual» bem-intencionado nos nossos dias tentaria livrar David desta ideia de que é Deus que está a falar por meio de Simei. Tentaria que ele ganhasse um sentido de proporção e auto-estima e que se livrasse da doutrina de que pode ser Deus que manda e usa as pessoas que são cruéis e injustas.
Mas aqui convém voltar-mos ao conceito bíblico da soberania de Deus. José, por exemplo, disse aos seus irmãos que não foram eles que o mandaram para o Egipto senão Deus (Gén. 45:8). Quando David depois peca, fazendo um censo do povo, um dos textos diz que foi Deus que lhe pôs a ideia na cabeça (2 Samuel 24:1), aparentemente contradizendo a versão de 1 Crónicas 21:1 que diz que foi Satanás. Amós depois diz: «Sucederá qualquer mal à cidade, e o Senhor não o terá feito?» (Amós 3:6). Satanás age para confundir e destruir. Deus, operando nos mesmos actos, age para testar, castigar ou purificar: as Suas intenções estando sempre de acordo com o Seu carácter justo e bom. Vejamos novamente Romanos 8:28!
Mesmo quando as pedras e os insultos de algum «Simei» blasfemo estão a cair sobre nós!
E o mesmo Deus que soberanamente dirige estas circunstâncias é Quem, pela Sua graça, pode olhar para a nossa miséria e pagar com bem a maldição que, em alguns momentos, deixa cair sobre nós.

21 fevereiro 2009

2 jumentos... 200 pães... 100 cachos de passas... 100 frutas de verão ... 1 odre de vinho.

2 Samuel 16:1-4.

Quem está a fugir, e numa viagem bem árdua que passa por cima de um monte, pode achar que um presente deste tipo vem mesmo a propósito!

Mas há presentes e presentes. Vieram-me à mente quatro tipos de presentes, no mínimo, e a mensagem que cada um pretende transmitir. Todos eles são símbolos. Em escala descendente, as suas mensagens são assim:
Presente tipo (1) diz: «Eu gosto de ti».
(2) diz: «Eu queria conhecer-te melhor».
(3) diz: «Eu quero que também me dês alguma coisa».
(4) diz: «Eu quero pôr-te do meu lado numa disputa em que estou envolvido».

Vivemos numa cultura em que é bem conhecido o fenómeno da corrupção. O presente (3) e o (4) incluem-se nesta categoria. Provérbios 17:23 diz: «O ímpio tira o presente do seio, para perverter as veredas da justiça».
Quando Ziba, o servo de Mefiboseth (filho adoptivo de David) aparece, perto do cume do Monte das Oliveiras, com essas iguarias todas para o rei e os seus acompanhantes, o momento é muitíssimo bem escolhido. Mas..... Ziba também faz queixa do seu senhor e atribui-lhe falsamente a intenção de ter ficado em Jerusalém para vir a ser rei. Estamos claramente no terreno do (3) e do (4)! Trata-se mesmo de um «presente envenenado».

E David exausto, e com o discernimento e capacidade crítica muito reduzidos, deixa-se enganar.

No ministério pastoral, já recebemos «presentes» que, pelo menos avaliados a posteriori, parecem ter tido intenções do tipo (3) e (4). Isso podemos nem sempre conseguir evitar... podemos vir a perceber a verdadeira intenção só depois. Mas, se percebemos na altura, devemos recusar-nos a aceitar.

O mais importante que temos que cuidar é a análise dos nossos motivos em dar prendas aos outros - e mantermo-nos sempre claramente dentro dos parámetros do (1) ou do (2).

17 fevereiro 2009

Ainda sobre o «se»....

Só me lembrei depois de ter escrito ontem que o «se» nesta passagem de 2 Samuel, que expressa a confiança e não a dúvida, tem um paralelo importante no Novo Testamento:
«Se Deus é por nós, quem será contra nós?» (Romanos 8:31)!

16 fevereiro 2009

Se......

Se.... (2 Samuel 15:25).

O rei e o povo estão de fugida de Jerusalém e passam o ribeiro do Cedron. A seguir, descalços e com a cabeça coberta, sobem o monte das Oliveiras a chorar amargamente. Tudo parece indicar que Absalão ganhou.
Séculos mais tarde o descendente de David, Jesus o Messias, iria parar no mesmo monte e desatar a chorar sobre esta mesma cidade que, no Seu tempo, O rejeitou (ver Lucas 3:28-29).
Abalados pelos problemas do nosso tempo – a crise financeira, a crise da incompreensão ou da rejeição – há líderes e membros experientes das comunidades da fé que estão hoje a perder tudo o que aparentemente tinham de seguro. Sentem-se, naturalmente, perto de David e Jesus, na encosta desse monte.
Mas.... há neste versículo uma partícula: «se».... Numa cultura como a portuguesa, tingida pelo fatalismo, o «se» muitas vezes tem a ver com o especulativo e altamente improvável (se a crise financeira mundial se resolver..... se uma tia rica morrer e me deixar uma boa herança.... se ganhar a lotaria....). Equivale quase ao desespero.
Mas não é assim com o «se» de David. «Se....achar graça nos olhos do Senhor». Dizer «se» pode ser apenas a indicação de que estamos a abandonar definitivamente toda a esperança que tínhamos em nós próprios e estamos, ao mesmo tempo, a afirmar a dependência real do Senhor que já no passado Se manifestou claramente nas nossas vidas. Podemos estar de facto a afirmar que estamos inseridos numa história escrita por Aquele que tem a última palavra sobre todos os acontecimentos. É Ele que dita todos os passos que necessários para lá chegarmos, passando por muitos caminhos que podem parecer ser de derrota total.
David naturalmente se sente cansado e frustrado. Sente o peso e os traumas incuráveis de erros passados .. traumas estes que subsistem apesar do facto de ter sido perdoado. Mas manda a arca a Jerusalém, porque acredita que Deus o vai fazer voltar até lá. Depois, em bastante menos tempo do que pareceria razoável ou mesmo possível, é exactamente isso que Deus faz.
Quando o «se» significa que recordamos o que Deus fez em nós e por nós pela Sua graça, e voltamos a firmar a nossa confiança de que Ele não muda, esta partícula, em vez de expressar esperanças incertas ou utópicas, pode introduzir os mais espantosos relatos de vitória!

Obrigado, Nuno Calaim, por teres escrito de Moçambique a dar um estímulo e uma palavra de ânimo. Vou tentar corresponder!

06 fevereiro 2009

Uma festa de tosquiadores..... e a teoria da «tábula rasa».

Já em 27 Janeiro falei de Absalão. E agora (4 Fev.) retomei o assunto e disse que ia seguir. Acho que interessa voltar um pouco ao princípio.. e estender isto durante algum tempo.
O conhecido conselheiro familiar, James Dobson, no seu livro «Solid Answers», ed. Tyndale, 1997, critica a ideia de que a personalidade humana é fruto do que a sociedade e o ambiente escrevem na «tábula rasa» que é cada bebé que chega ao mundo. A ideia vem de Locke e Rousseau.
Nas minhas primeiras leituras acerca de Absalão, era bastante influenciado por esta ideia. Tendia a culpar os efeitos dos erros de David, o pai por tudo aquilo que o filho revoltoso faz de errado. A revolta de Absalão não surge do facto de David não ter conseguido disciplinar Amnon, o meio-irmão que violou e depois rejeitou a sua irmã Tamar (ler 2 Samuel 13)? E, dando um passo mais para trás, Amnon não esteve apenas a copiar o modelo que David dera quando adulterara com Batseba?
Se fizermos uma leitura deste tipo, podemos chegar ao ponto de querer admirar Absalão por conseguir fazer aquilo que David não tem coragem para fazer – ter uma «mão firme», fazendo Amnon sofrer por aquilo que este fez sofrer à sua irmã. E, se acharmos que «os fins justificam os meios», podemos querer perdoar as artimanhas de Absalão (o facto de dar esta punição na altura de uma festa de tosquia, em que prepara tudo para Amnon ser morto num momento de embriaguez).
Mas, depois de chegar a este ponto, percebi que a própria Bíblia não pretende que se leia o relato de Absalão só desta maneira. É verdade que mostra, de uma forma brilhante, a relação que existe entre os pecados dos pais e os dos filhos. Mas não justifica os erros dos filhos desta forma.
Acredito firmemente que a doutrina bíblica e histórica do «pecado original» dá uma explicação mais satisfatória do comportamento humano do que a teoria da «tábula rasa».
Se creio que sou «tábula rasa», posso culpar os meus pais ou a sociedade por tudo o que faço de errado. Se creio no pecado original, sou obrigado a dizer que sou eu o culpado. David depois diz (Salmos 51:3-4) que é responsável por aquilo que fez e, sem considerar que assim entra em contradicção, que nasceu em pecado. Toda a evidência é que Absalão, por contraste com o pai, nunca chega à lucidez e ao arrependimento a que seu pai chegou.
Absalão não é só, nem principalmente, o que David ou a sociedade faz dele. É, e no último dia será, julgado pelas suas próprias atitudes e actos, que nascem dos recantos escuros do seu próprio coração.

04 fevereiro 2009

«PROVAVELMENTE...... não tens quem te ouça da parte do rei....»

Os cartazes afixados em Janeiro nos autocarros de Londres evocam as provocações de Absalão. Só que o «provavelmente» é um acrescento meu às palavras do filho-revolucionário do rei David (ver 2 Samuel 15:3).

A Associação Humanista da Grã Bretanha – com o apoio do cientista Richard Dawkins – parte da base de que Deus não existe («provavelmente!») para uma «generosa» autorização às pessoas para elas desfrutarem da vida.

Como a campanha, bem elaborada, veio a seguir ao eclodir da crise financeira mundial, «provavelmente» esta Associação devia ter acrescentado à sua autorização às pessoas uma condição: «se fizeres parte da reduzidíssima percentagem da população mundial que tem meios financeiros para o fazer». E depois teria ainda que acrescentar: «Provavelmente daqui a um ano ainda terás os meios suficientes para poderes desfrutar da vida...»! (Teremos?).

O «timing» da campanha não foi nada bom... para o que a Associação Humanista pretendia. Para o que Deus pretendia, através dessa campanha ousada e irreverente, «provavelmente» terá sido um «timing» excelente.

Dentro de dias esperamos voltar com algo mais sobre Absalão....