15 março 2010

Filhos (3)

As pessoas que iniciaram o primeiro processo de «libertação», já em 1993, diziam que o nosso problema era que não tínhamos jeito para o trabalho com jovens. Acredito que a saída de muitos jovens da igreja nesse ano tenha sido ainda mais por influência desses adultos do que por vontade dos próprios jovens!
Quase todos os amigos que o Ricardo tinha feito, por exemplo, saíram. Alguns terminaram por associar-se a uma igreja «carismática»; a maioria deixou de frequentar qualquer igreja.
Entretanto, poder-se-ia pensar que, tendo eu o ministério de ensinar no Seminário, e tendo nós os dois trabalhado durante anos com o Grupo Bíblico Universitário, tínhamos da parte do Senhor pelo menos alguma capacidade nessa área. Mas o problema dos nossos críticos era o facto de querermos definir limites, ensinando os jovens claramente, por exemplo, a não se envolverem em namoros com pessoas que não eram crentes. Os outros «sabiam» que era preciso, em tempos como estes, a igreja ser mais «tolerante».
Quando, em 1998, os dois grupos da oposição se uniram, para fundar uma nova missão, era em boa parte para tentar juntar os jovens de novo. Estes dois grupos nunca conseguiram relacionar-se bem um com o outro. A «missão» tem continuado a funcionar desde essa altura, agora estando reduzida a um grupo diminuto de pessoas de bastante idade. Tem tido o apoio de uma outra igreja da zona – situação com a qual manifestámos a nossa discordância desde o princípio sem, por isso, deixar de nos relacionarmos com essa igreja.
Houve situações trágicas com alguns jovens das famílias em questão – situações que não queria comentar aqui, por respeito à dor que essas famílias sofreram.
Entretanto os nossos filhos mantiveram-se na igreja, primeiro sendo «levados» pelos pais e, depois, seguindo da sua própria vontade. Encontraram muito apoio em trabalhos como o GBU. Alguns passaram fases «carismáticas», querendo outro estilo de culto. Nenhum prejuízo veio daí: o que puderam aprender de outros lados, aprenderam. Aprenderam a dar, também, valor à exposição da Palavra na nossa congregação – um tipo de ministério que se encontrava pouco, mesmo no meio baptista.
Por respeito a eles não conto aqui algumas das situações incómodas que surgiram – pela graça de Deus não me parece que tenham sido mais prejudiciais do que as que surgem na vida de quaisquer adolescentes.
Agora, como muitos leitores deste blog sabem, dois estão casados com crentes dedicados. A Laura Beswick passou a ser «Pallister» também – e o John (que costumes!) passou a ser «Beswick»! A Lilian passou a ser «Calaim» também – e o Luís (como é que isso poderia ser?) passou a ser «Pallister»! O Ricardo trabalha esforçadamente com crianças e adolescentes na igreja e o Andrew continua a estar envolvido também.
Têm vindo novas famílias à igreja, que não sofreram esses problemas e, neste momento, há um trabalho com adolescentes e crianças com muito dinamismo.
Para os leitores deste blog que conhecem a Bíblia, não será preciso dizer onde é que se encontram passagens que asseguram que, quando criamos os filhos para aceitarem e obedecerem a Palavra, Deus nos honra. Durante muito tempo na nossa casa houve a sensação de que as intrigas e os telefonemas na altura das refeições, de pessoas da igreja, envenenavam o ambiente. Mas foi Deus, muito mais ainda do que a igreja, que cuidou dos Seus filhos. Na lógica de Romanos 8:28, Ele trabalhou para o bem dos Seus, mesmo através desses telefonemas e intrigas!

24 fevereiro 2010

Filhos (2)

E, agora, a parte financeira!
Acontece que a nossa família tinha uma característica que complicava ainda mais a situação. A minha esposa, sentindo-se também vocacionada para o ministério na igreja, e tendo uma parte indispensável nele, não recebia salário. O meu salário teria sido suficiente para uma pessoa. Numa altura, perante as pressões, a Celeste aceitou uma colocação numa Escola próxima, para ajudar de maneira ao «barco» não se afundar.
O facto é que a experiência não correu bem – nem a nível da escola, nem a nível da família. Antes os filhos podem ter desejado estar só com o pai: depois perceberam que o pai, envolvido em muito trabalho e ausente uma parte do tempo no Seminário, não podia dar-lhes o apoio que precisavam.
Durante um tempo valeu-nos o produto da venda de uma propriedade, que tinha vindo da herança dos meus pais. Valeu-nos durante o tempo todo o valor que recebia pelas aulas que ministrava no Seminário Teológico Baptista. Valeu-nos também o facto de amigos que recebiam cartas circulares nossas – uma vez que éramos associados (isso é, sem sustento certo) da Missão Cristã Europeia – enviarem ofertas ocasionais. Normalmente era num momento de grande aperto que chegavam estas ofertas, e de uma forma inesperada. Valeu-nos também as pessoas na igreja (mesmo aquelas que passaram a ser «da oposição») nos oferecerem alimentos da sua lavra.
É verdade que os filhos se queixavam do facto de não terem o nível de vida que os seus colegas tinham. Na nossa família também eram feitas as habituais queixas, pela nossa roupa não ser «de marca»! Por outro lado valorizavam férias em família, no campismo, privilégio que muitos dos seus colegas não desfrutavam , mesmo em casos em que os pais ganhavam muito mais. (Uma vez as nossas férias, no parque de campismo de Góis, foram perturbadas por notícias da igreja recebidas por telefone – quando a «oposição» aproveitou a altura para preparar um abaixo assinado, preparando para a reunião que iria exonerar-me. Mesmo assim, acredito que os filhos tenham gostado dessas férias – talvez mais do que nós!).
Sofreu-se muito aperto para eles poderem seguir com os seus cursos superiores! Mas seguiram. E todos, menos o último, já acabaram! E as propinas foram pagas, graças em parte também as bolsas que receberam.
Os temperamentos são diferentes. Acredito que alguns deles tenham sentido mais a experiência de aventura envolvida numa vida assim – e que outros preferissem na altura não ter que passar por esses apertos e peripécias. Mas acredito também que, depois, souberam dar mais valor àquilo que lhes vinha – do trabalho, mesmo do serviço evangélico de tempo integral (no caso de um dos quatro) – graças a essas dificuldades. Também a sua família manteve-se unida: muitas vezes viram grande sofrimento nas famílias em que os pais, mesmo ganhando muito melhor, tinham problemas de relacionamento ou se divorciavam.
Creio contudo que, hoje, se eles citarem Romanos 8:28, não será para manifestar uma atitude de revolta ou ironia. Alguns com mais entusiasmo do que outros – mas creio que todos poderão confirmar que este texto expressa a verdade que experimentámos!

17 fevereiro 2010



Teremos algumas leituras de textos de pensadores políticos e depois muita troca de ideias a partir deles e com a ajuda destas pessoas:
Tiago Aragão - responsável da aepjovem, advogado, pastor da Acção Bíblica de Sesimbra, deputado municipal pela CDU em sesimbra.
Joaquim Mateus - ex-líder do PSD norte, presidente da Junta de Freguesia de São João da Madeira, empresário, ancião na igreja de Cucujães.
Marta Gomes - professora, igreja dos irmãos de Coimbra, líder distrital do PS Coimbra
Trajano Martins - líder de jovens da igreja dos irmãos de Sangalhos, assistente social na Misericórdia do centro, candidato não eleito pelo CDS a presidente da Junta de Freguesia de Sangalhos
Samuel Cerqueira - economista, assessor na Segurança Social nacional, pensador de esquerda

13 fevereiro 2010

Sacudir o pó?

Ainda antes de seguir, com «Filhos 2», parece-me que a resposta do Samuel (Nunes) merece uma resposta específica. O Samuel diz que é bíblico um pastor sair de uma igreja em que as pessoas não o desejam, sendo este o princípio de «sacudir o pó das sandálias» (ou dos «pés»!).

Pode acontecer o Samuel e o Tó-Zé Queiróz, que tiveram a amabilidade de manifestar as suas opiniões, terem lido algumas postagens e não outras anteriores e, dessa maneira, não terem percebido que estava a contar acontecimentos de 10 anos atrás. Como vivo feliz agora, na mesma igreja (mas sem a presença dos destabilizadores), não me parece que venha muito a propósito discutir se teria sido «bíblico» ou não sair, em 1998 ou antes! Naturalmente na altura, sair teria sido uma das opções «bíblicas» possíveis: permanecer também acho que era. Acontece que o Senhor nos ajudou a compreender que sair não era a Sua solução, na situação específica – e que dez anos da história posterior da igreja deram-nos muitas razões para confirmar isso.

Sair, como Samuel diz, seria uma forma de «sacudir o pó». Mas Jesus deu este conselho aos doze discípulos, quando estes fossem para determinadas terras judaicas que não aceitassem a mensagem do reino. Não o deu a pastores que fossem nomeados para cuidar de igrejas já estabelecidas. Para estes acho que os conselhos de Paulo a Tito (1:5-11) viriam mais a propósito. O método bíblico para tratar dos insubordinados é tentar ensinar, persuadir, repreender e, em última análise disciplinar. Isto por amor aos que fazem parte da igreja e sinceramente desejam fazer a vontade do Senhor, mesmo que estejam temporariamente na minoria.

Cada postagem que escrevo constitui uma pequena parte da história. Mais para a frente quero salientar o facto de o Senhor nos ter concedido o privilégio de podermos disciplinar aqueles que precisavam dessa disciplina e assim, daí para a frente, termos uma igreja que, com todas as suas limitações, era e é digna do nome de igreja. O objectivo de Jesus é «santificar a igreja, tendo a purificado com a lavagem de água, pela palavra» (Efésios 5:25). O preço que pagou, em termos de sofrimento injusto, foi muito maior do que os incómodos que eu e a minha família sofremos. Mas foi Ele que nos deu o privilégio de nos sentirmos parte do seu próprio sofrimento – com objectivos semelhantes.

Pusemos a nós próprios, em várias alturas, diante do Senhor, a hipótese de sair. Colegas aconselharam a nossa saída. Cada vez parece que algo bloqueou essa hipótese: creio que foi o próprio Deus que a estava a bloquear.

A história posterior confirmou que Ele tinha dirigido assim. Se algum colega, confrontado com problemas semelhantes, sai de uma igreja, não reprovo a sua opção. Mas também creio que haverá igrejas em que – como foi no nosso caso – vale a pena lutar e sofrer - um pouco - para que haja mudança a longo prazo.

É verdade, como diz o Samuel, que as igrejas filiadas na Convenção Baptista sofrem dificuldades, algumas vezes, por causa de algumas limitações do sistema democrático. Mas outras igrejas também as sofrem. E igrejas menos democraticamente organizadas também as sofrem – sempre quando há pretensos «donos» que querem facilitar em questões de doutrina ou ética bíblicas. O Samuel tem razão em dizer que os pastores de outras igrejas às vezes erram em dar a sua «bênção» à causa destes elementos.

Obrigado aos que responderam! É bom poder continuar a contar a história – mas com estas interrupções, para poder reagir ao que alguns leitores vão comunicando!

06 fevereiro 2010

Filhos....

Nos meus «retalhos» já cheguei ao ponto de descrever, em linhas gerais, o processo envolvido na segunda tentativa de membros da nossa igreja se «libertarem» do nosso ministério incómodo.
Mas, alguém pode estar a pensar: «vocês – Alan e Celeste – tinham uma vocação de parte de Deus para estarem nesse lugar. E os filhos? Eles foram por vocação? Tendo sido arrastados para uma igreja em que muitos elementos não iriam respeitar a pessoa ou o ministério dos seus pais, como é que eles poderiam atravessar as crises, sem ganhar uma aversão total para o “ministério evangélico” em que os seus pais estavam comprometidos. E mesmo para a igreja em que se encontravam, mas sem ser por escolha própria?
E, na parte financeira, havendo essa redução drástica do salário, relativamente àquela que inicialmente nos tinham dito, como é que os filhos poderiam completar o ensino secundário e universitário, sem ser numa situação de pobreza extrema e sem sentir uma grande revolta como consequência?
Gostava de dar algumas respostas a estas questões hipotéticas – questões que nós já nos colocámos muitas vezes na altura. Por respeito a cada indivíduo que faz parte da minha família, vou falar em termos bastante gerais.
Em primeiro lugar, é verdade que os filhos sentiram a mudança, uns mais do que outros. O Ricardo, já adolescente, sofreu pela separação dos seus colegas de escola e igreja, de Coimbra. A Lilian e o John sentiram a dificuldade própria de terem que mudar de escola duas vezes. (O Andrew era demasiado pequeno nessa fase para notar o problema). Mas, como é óbvio, este tipo de situação surge muitas vezes com outros tipos de mudança que os pais têm que fazer, sem ser só mudanças por causa do ministério numa igreja.
Em segundo lugar, a vida da igreja sempre teve a sua parte positiva. Experiências agradáveis foram vividas em muitas ocasiões, houve convívios e boas lições foram dadas, mesmo por pessoas que depois entraram em conflito. Nos sermões acredito que tenham aprendido algumas coisas, uma vez que o método expositivo pode ter valor não só para adultos mas para os mais novos também. No culto doméstico (quando não descuidávamos!) foi possível manter a comunicação na família, tentando explicar de algumas maneira quando as situações estavam a «azedar».
Na altura do voto em 1998, para decidir se eu ia ser exonerado, havia uma sensação entre nós de companheirismo na luta. Tendo sido o voto por escrutínio secreto, não posso afirmar categoricamente que todos os filhos tenham votado a favor da nossa permanência! Se algum estava tão cansado da luta que votou contra, posso manifestar aqui a minha compreensão para ele. Mas há qualquer coisa que me diz que eles devem ter apoiado a nossa permanência, compreendendo, no mínimo, que era importante para nós, os pais, seguirmos a nossa vocação e (quem sabe?) talvez vislumbrando um futuro melhor, mesmo para eles, de acordo com as promessas de Deus.
Sobre a parte financeira, espero falar na próxima postagem.

19 janeiro 2010

Instalações - ou um obreiro?

Parece que as novas instalações tinham mesmo que ser feitas! E parece que o pastor tinha que ficar mais um tempo em Caldas da Rainha!

Mas, para poder servir o Senhor, que nos dirigia neste sentido, o pastor chegou a emprestar, sem juros e sem data prevista para a amortização, todo o restante valor do que tinha recebido da herança dos pais, sendo este dinheiro administrado, temporariamente, por pessoas que o acusavam de estar a desviar fundos da mesma igreja! Note-se bem: emprestei à igreja, sendo Jesus o Senhor dessa igreja – não emprestei a indivíduos que, temporariamente, estavam na liderança.
Também foi possível a igreja receber um empréstimo da Convenção Baptista Portuguesa, este com juros e prazos estabelecidos para a amortização, e depois um reforço do mesmo empréstimo.

Igrejas e indivíduos a quem dirigíamos cartas apelando por ajuda surpreenderam-nos com a sua generosidade. Poucos deles eram do estrangeiro: o valor que entrou de dentro do país deve ter sido bem mais do que 90% do valor total. Num ano só (1996, se não me engano) entraram ofertas de mais de 3.000.000 escudos (o equivalente de 15.000 euros) para o nosso fundo de obras.

Mesmo assim, as entradas mensais não estavam a cobrir bem as despesas – facto este que o tesoureiro queria usar para que a igreja decidisse despedir o pastor. Cheguei a prescindir do salário de um mês inteiro, confiando na provisão do Senhor de outras maneiras, para que a situação não desequilibrasse. O tesoureiro naturalmente não agradeceu – a vontade dele era que a situação desequilibrasse mesmo!

A igreja agora decidiu que a residência pastoral seria prioritária. Mantivemos esta posição, uma vez que se tratava de uma decisão tomada em assembleia de igreja. Mas aqueles «líderes» que tinham vindo a desejar a nossa saída tentaram, particularmente com o empreiteiro, trocar novamente a ordem de prioridades para que o salão de cultos fosse terminado primeiro. Quando chegou a altura em 1998 de mudarmos para a residência, livrando-nos finalmente da renda pesada que tínhamos estado a pagar, a mudança estava a ser boicotada activamente e estava a ser realizada uma «campanha» de difamação, cujo ponto principal era que o pastor tinha desviado algum dinheiro que entrara para a igreja da Convenção Baptista. Em visitas aos crentes que se iam desencorajando com todo este ambiente, íamos tendo conhecimento de um activo duo de visitadoras que ia «adiante» de nós. Curiosamente uma delas era a mulher do tesoureiro e a outra a sua inseparável amiga «sem papas na língua»!

Como quem acusava o pastor de desvio de fundos era tesoureiro, era natural alguns membros da igreja acreditarem! Mas devo afirmar aqui que a acusação era totalmente falsa, não tendo eu feito nada que pudesse nem sequer remotamente ser considerado desvio.

Aproveitando uma altura de férias organizaram um «abaixo assinado», a ser votado em reunião extraordinária da igreja, exigindo a exoneração do pastor.

Tentativas feitas pelo Presidente da Direcção da Convenção Baptista de acalmar os ânimos não conseguiram nada. A assembleia realizou-se, moderada pelo mesmo Presidente da Convenção, e com um consultor jurídico (evangélico) presente para ajudar a resolver qualquer caso de dúvida. Perguntados quais eram os motivos do desejo de despedir o pastor, o cabeça do « movimento» respondeu que eram questões de dinheiro – o pastor tinha chegado a prescindir de um salário! Suponho que, implicitamente, estava a dizer que tinha agido assim para ocultar alguma outra anomalia, mas não foi capaz de apontar nada concreto. Aliás, confrontado com a campanha difamatória que ele e a mulher estavam a orquestrar contra o pastor, «virou o bico ao prego», dizendo que isso era invenção do pastor para os difamar!

Votos postais não foram admitidos – apesar de terem chegado alguns a favor da permanência do pastor. Colocou-se a questão se os votos da família do pastor que eram membros da igreja podiam ser contados – o consultor jurídico aconselhou que sim.

O voto, com maioria de um, foi a favor da permanência do pastor. Mesmo assim os derrotados elaboraram depois um processo judicial para impugnar os votos dos membros da família do pastor – processo este que, após muitas diligências, um outro Presidente da Direcção da Convenção Baptista, os convenceu a abandonar, a favor do testemunho da igreja.

Parece que as novas instalações tinham que ser feitas. E parece que o pastor tinha que ficar mais um tempo em Caldas da Rainha – muito embora, humanamente, pudesse ter desejado ir para qualquer outro lado!

12 janeiro 2010

Dava-nos jeito era um missionário...

O meu antecessor no ministério pastoral em Caldas da Rainha esteve aqui cinco anos. Além de ser um evangelista e doutrinador de reconhecido valor, tinha duas vantagens óbvias. Uma era que, sendo brasileiro, o português era a sua primeira língua. A outra era que, sendo missionário de uma Junta do seu país, tinha o seu sustento garantido, sem a igreja local ter que arcar com essa despesa. Só que, ao aceitar o trabalho de pastorear uma igreja local, deixara de se concentrar no ministério para o qual tinha sido enviado pela sua Junta – que era o trabalho pioneiro de implantação de igrejas.
Quando chegámos aqui, com os nossos quatro filhos, os responsáveis admitiram que o salário oferecido era insuficiente - mas disseram-nos que, logo que a residência pastoral se construísse (e essa era a primeira parte do projecto de construção do novo templo), estaríamos livres de ter que pagar renda de casa, o que iria tornar a situação mais sustentável.
Sendo eu estrangeiro, poder-se-ia pensar que tínhamos alguma garantia de sustento de fora – o que no caso não era verdade.
Não foi preciso estar aqui muito tempo para verificar que o plano ambicioso de construção do novo templo tinha mais a ver com cálculos baseados no crescimento numérico aparente - concretizado e previsto - do que com uma avaliação séria da condição espiritual da igreja. A igreja estava dividida por conflitos, e, salvas honrosas excepções, os seus membros tinham uma fraca noção de compromisso com o Senhor da igreja. Tinha quase cem «membros». Mas só foi preciso um trabalho de visitação pastoral de algumas semanas para percebermos que cerca da metade desses membros tinham pouca compreensão do significado de um compromisso com Cristo. Muitos de facto pareciam mais adeptos da pessoa do meu antecessor do que propriamente discípulos de Cristo.

Uma das primeiras situações que teve que ser revista foi o plano de se construir primeiro uma residência pastoral e, só depois, iniciar a construção do local de culto. Decidiu-se optar pela construção de tudo «no tosco» - o que significava que o terminar a residência pastoral iria demorar muitos anos! Mesmo assim as pessoas começaram a afastar-se pouco a pouco do projecto em si – compreendendo que ultrapassava de longe as possibilidades da igreja.
Tivemos que nos contentar com o pequeno salário inicialmente oferecido, sem perspectivas a curto ou a médio prazo de ficarmos livres do pagamento de uma renda (uns 40% desse valor)!
Como já referi, houve uma saída substancial de membros da igreja, incluindo a maior parte dos jovens, em 1993. Depois a igreja que permaneceu optou por adquirir uma outra propriedade mais pequena e fazer um plano mais realista. Mas, com pouco mais de cinquenta membros, a maioria deles com rendimentos baixos, mesmo esse plano, ao ser bem apreciado, tornou-se um desafio manifestamente ambicioso demais para as nossas possibilidades.
Ainda por cima, o pastor tinha duas desvantagens, que foram sendo cada vez mais sentidas por alguns: uma era que, sendo estrangeiro, não se conseguia livrar totalmente do seu sotaque. A outra, curioso paradoxo, é que não era missionário!
De facto eu pensava que era! Tinha vindo de outro país com um sentido de chamada para fazer o trabalho do Senhor: sentia-me «enviado» por Deus. Mas tornou-se óbvio que ser «missionário», na definição aceite aqui, significava «receber o sustento de fora». Ora, o que dizer de um estrangeiro sustentado pela igreja local – cujo salário, embora insuficiente, não permitia que a igreja acumulasse valores para o seu projecto de construção?

Não era de admirar que, no último domingo do mês, quando o tesoureiro da igreja me entregava o cheque para pagamento do salário, dissesse com frequência, primeiro com alguma candura, mas depois com vontade manifesta de me incomodar:

«Dava-nos jeito era um missionário!».

05 janeiro 2010

Estamos em 2010!

Este ano para a Igreja Evangélica Baptista de Caldas da Rainha é bastante especial. É o ano em que, segundo os planos estudados e concretizados ao longo dos últimos anos, as últimas amortizações dos empréstimos devem ser entregues para pagamento total das nossas novas instalações!
Ao mesmo tempo, quem participa num culto ou actividade social da igreja fica, creio eu, com a sensação de novidade. Famílias novas envolvidas – um trabalho interessante com crianças e adolescentes – novas iniciativas de diferentes tipos. Com 44 membros, a igreja não parece ter crescido muito – em espírito de serviço e testemunho credível perante o mundo à volta tudo mudou! A grande maioria das pessoas que agora estão connosco não conhecem as histórias que vou contar – ou conhecem-na só de ouvido – porque chegaram depois de 1998.
Vou começar em breve uma série de relatos que parecem pesados e tristes. Relatos que revelam por um lado a seriedade – não há dúvida de que as pessoas tinham o objectivo de que a igreja crescesse numericamente e lutaram por ele. Mas, por outro lado revelam mesquinhez, que conduz facilmente à maldade. Quando elas viram alguém que, julgando que tinha um ministério de parte de Deus, incomodava e não pactuava com erros instalados, julgaram esse alguém como sendo um elemento a mais, que devia ser removido para a «paz» e «conforto» de todos.
Mas tenho o prazer de vos contar a maneira bem alegre como a história terminou – antes de a acompanharem no pormenor! E de referir que nunca mais foi preciso o pastor prescindir do salário de um mês, depois dessa altura mais crítica em 1998!
Se o mérito aqui é de alguém, naturalmente é de Jesus, Salvador e Senhor da Sua igreja – que inclui a nossa e todas as que o invocam de coração sincero!

26 dezembro 2009

UM ILUSTRE CALDENSE QUE NÂO QUERIA PROTAGONISMOS.

Desde os primeiros dias em Caldas da Rainha notámos que se sentava no último banco do salão de cultos, um homem já idoso com ar manso mas, de certa maneira, distinto. Perguntámos aos líderes da igreja quem era e respondiam, com uma certa ternura, «é o Dr. Moreira». Nas primeiras conversas que nós tivemos com ele, falou no pai: «o meu pai era pastor e missionário». Pôs-se à disposição para nos dar consultas gratuitas quando precisássemos.
Tão pouco dado a abrir-se, falar publicamente, ou dizer qualquer coisa a respeito de si próprio, o Dr. Moreira só depois de algum tempo confirmou aquilo que eu já estava a imaginar – que era filho do falecido Pastor Eduardo Moreira, distinto autor evangélico e antigo director da Aliança Evangélica. O Dr. Ernesto tinha sido colega de curso de Miguel Torga em Coimbra. Percebi que o Dr. Ernesto tinha vindo para Caldas da Rainha em 1946 – 10 anos antes da fundação da Igreja Baptista - e que, sendo membro da Igreja Lusitana em Lisboa, nunca se tinha integrado nela. Mas frequentava os cultos e ajudava financeiramente .... e dava as suas consultas gratuitas a pastores e familiares no Montepio, de que era director havia longa data.
Quanto a falar publicamente na igreja, era escusado pedir-lhe fosse o que fosse... dizia que não gostava de protagonismos.
Numa altura veio viver connosco uma amiga moçambicana idosa que tinha ajudado a criar os nossos filhos em Coimbra. Passou bastante tempo connosco em casa, como se fosse uma avó. Já tínhamos ganho alguma confiança com o Dr. Moreira e perguntámos se, indo de boleia no nosso carro, podia ir à casa ver a D. Angelina que tinha já muita falta de mobilidade (embora tivesse uns bons anos a menos do que o Dr. Moreira!). Aceitou sem hesitar e, depois de ver os exames, olhou para ela e, com ar muito sério, disse: «a sua coluna está uma vergonha!». Mas ajudou a aliviar de alguma forma as suas dores e, sobretudo, deu-lhe apoio psicológico.
No nosso tempo aqui o Dr. Moreira concluiu o seu projecto de fundar um importante Lar de Idosos na cidade, foi condecorado pelo Presidente da República e uma rua da cidade recebeu o seu nome .... ainda em vida dele!
Com base nas frequentes queixas de pessoas que saíram da igreja, o Dr. Moreira, que tanto nos ajudara e apoiara, convenceu-se que nós não devíamos ser as pessoas certas para o ministério pastoral aqui. Creio que foi com esta preocupação, e com a séria convicção de que eu estava a prejudicar a minha saúde, que um dia disse, no consultório, com frontalidade mas com imenso tacto, que talvez fosse melhor nós pensarmos numa mudança de campo. E lá, no consultório dele, descontrolei-me, dizendo bem alto que não estava em Caldas por vontade própria, mas por convicção de que era Deus que me tinha chamado! Não sei se o Dr. Ernesto se identificava com esse tipo de sentimento: os seus dons eram mais humanitários do que proféticos e talvez esse tipo de convicção lhe soasse um tanto descabida. O facto é que passou a congregar-se com o grupo que saiu da igreja, recebendo muito apoio dalguns deles (muito mais de facto do que nós lhe poderíamos ter dado).
O funeral do Dr. Ernesto foi num dia quente, em Agosto de 2005, quando já completara os 94 anos. Estive presente e falei no cemitério, como também falou um colega que estava a pastorear o grupo dissidente. Uma familiar do Dr. Ernesto, numa certa altura, achou que o meu colega estava a ser longo demais e sugeriu que terminasse a sua intervenção!
O número relativamente pequeno de pessoas presentes não parecia corresponder de modo nenhum à envergadura do trabalho desta figura distinta das Caldas, nem ao seu carácter cristão, humilde e gracioso, que marcaram a vida de tantos, especialmente das classes sociais mais carenciadas, independentemente de pertencerem a uma igreja ou não.

12 dezembro 2009

O ALENTEJANO E O SEU VOLKSWAGEN AMARELO





O alentejano vinha da área de Chança. Era já membro da igreja de Caldas da Rainha há alguns anos quando chegámos aqui: até havia uma acta de uma reunião da igreja que tinha sido secretariada por ele. A sua mulher também era membro da igreja e tinham um filho jovem, um adolescente e uma menina pequena.

O alentejano tinha infelizmente o vício do álcool. Quem tem experiência desse problema sabe como é: ele era dócil e humilde quando não tinha bebido, pedia repetidamente perdão ao Senhor, com lágrimas nos olhos.... mas, depois, caía novamente. E quem o via assim não conseguia compreender as frequentes cenas de violência que surgiam em casa quando ele estava sob a influência do álcool.

De acordo com os nossos princípios, aconselhámos o casal a não encarar o divórcio como a solução para o seu problema. Mas vários períodos de separação teve que haver – para bem da esposa e dos filhos – a título mais imediato (e também dele porque depois se sentia muito culpado!)..

O Volkswagen amarelo do nosso amigo já tinha bastantes anos. Mas ele cuidava-o bem, dentro das limitações da sua situação financeira dificílima.

Houve um período em que, estando separado da sua família, pela razão habitual,
o alentejano não tinha a possibilidade de ir para a sua terra. Resolveu dormir no carro, à frente da sua casa, durante várias semanas. Ao menos assim podia ver a família, dizia ele. Mas os vizinhos comentavam! Talvez alguns tenham pensado que era falta de amor da parte da esposa deixá-lo assim. De facto não sei se realmente pensavam isso – mas ela, a mulher do alentejano, sentia que era assim que eles pensavam. Eles não pensavam no que ela sofria quando o seu marido estava embriagado e entrava em casa! Também não gostávamos da solução que ele encontrou: infelizmente durante bastante tempo não tivemos uma melhor a propor....

...até ao dia em que nos lembrámos de propor que o alentejano fosse passar um tempo num Centro de recuperação da Remar, até porque a sua saúde estava a deteriorar. Ele aceitou esta proposta e foi com mais dois – os outros com problemas de droga – ficar num Centro perto da Serra de Lousã, e posteriormente noutro perto de Azambuja. Neste Centro ele foi estimado e conseguiram que deixasse o hábito de se ir «consolar» na tasca mais próxima. Naturalmente o Senhor o terá ajudado a ganhar força. Devido à idade (tinha cerca de 50 anos na altura), e a problemas cardíacos, não podia fazer os trabalhos duros que era hábito os utentes do Centro fazerem. Mas passou a ser «conselheiro» – os jovens tratavam-no como um tipo de pai.

O seu principal problema era que a sua mulher e filhos estavam longe e ele tinha muitas saudades deles. Ela sabia que, se fosse visotá-lo, ele quereria voltar logo com eles - e voltar com eles poderia facilmente significar voltar ao álcool.

Depois de bastante tempo, num sábado, a sua esposa ganhou finalmente coragem para lhe prometer que o iriam visitar no Centro. Os responsáveis do Centro disseram que esta notícia deu uma alegria tão grande ao nosso amigo alentejano que ele não a podia conter. E, durante a noite, morreu de ataque cardíaco, feliz, pensando na sua família que iria voltar a ver!

Creio sinceramente que nessa altura o alentejano se estava a manter-se livre do vício. E não duvido da fé simples que ele professava antes – e que agora aplicava à sua vida com mais coerência. Mas a sua família – a esposa sobretudo – parecem ter tido sentimentos de culpa, depois da sua morte, com os quais não conseguiram lidar. Apesar de nós lhes termos dito repetidamente que estavam a fazer, na situação, aquilo que podiam.....

26 novembro 2009

A Bíblia no centro da pregação - 4 a 7/12



Este é o foco do retiro. Para isso, serão apresentados os seguintes temas:
- A Grande Ideia do sermão expositivo [M.G.]
- O texto no seu contexto histórico - e a sua relação com Cristo [M.G.]
- Princípios hermenêuticos [M.G.]
- Introdução, ilustrações e aplicação [A.P.]

Mas não é só teoria! Vai haver oportunidade de:
- ouvir sermões expositivos pelo Alan e pelo Matt
- preparar e pregar um sermão expositivo

Não é só para pastores ou pregadores profissionais!! É para qualquer pessoa que ama a Palavra e quer ser fiel a Deus.

25 novembro 2009

Expor a Bíblia - Retiro no Canto da Rola










4 a 7 de Dezembro

Alan Pallister
professor no Seminário Baptista e pastor

Matthew George
professor no Instituto Bíblico e assessor do GBU

Desde a Reforma que os protestantes defendem a primazia da Bíblia - em relação à fé, à vida, e a toda a compreensão da religião e do mundo.
Mas como é que a nossa perspectiva sobre a Bíblia afecta a pregação? Naturalmente, todas as pregações são baseadas na Palavra - mas não seria ainda melhor se a Palavra não só fosse referida nas pregações, mas também orientasse a escolha e a preparação dos temas e até da forma como eles são tratados?
A pregação expositiva baseia-se nesta preocupação: se Deus se revela na Bíblia, então o próprio formato - em livros, estilos e épocas diferentes - devia também orientar os sermões. Além disso, há uma grande preocupação em compreender toda a Bíblia através de Jesus - a própria Palavra.

Então, nestes dias vamos explorar as razões e as estratégias deste método de pregação, tendo também oportunidade de preparar e apresentar um sermão - para aprendermos na prática.

Não é só para pastores ou pregadores profissionais!! É para qualquer pessoa que ama a Palavra e quer ser fiel a Deus.


Horário
O retiro começa com uma sessão introdutória às 21h30 de 6ª, mas antes disso convidamos a estarem no culto na igreja Baptista de Caldas da Rainha às 19h30 onde poderão ouvir um sermão expositivo pelo Pt. Alan Pallister.
Acabaremos na 2ª ao fim da tarde, com a oportunidade de os participantes apresentarem um sermão expositivo e receberem feed-back.
(É possível a participação apenas numa parte, e o valor da inscrição será acertado em função disso.)

Livros de apoio
Estamos a fazer os possíveis para ter à venda um livro essencial de apoio: A Pregação Expositiva de Haddon Robinson. Sugerimos que os participantes tragam dinheiro a contar com isso.
(Se não conseguirmos ter o livro à venda, disponibilizaremos excertos fotocopiados.)

Custos
Ficará em €36 por pessoa com dormida, jantar ligeiro e o pequeno almoço.
Em alternativa, será €18 para a participação, incluindo os jantares ligeiros.
Os almoços não estão incluídos neste valor, mas serão num restaurante próximo com muito bons preços.

Dormida
Temos alguns lugares disponíveis, caso queiram passar a noite no Canto da Rola para disfrutarem melhor deste evento, e também de um sítio calmo e bonito.
A estadia tem que ser marcada por e-mail (longobedience@gmail.com) ou telefone (933617265 / 911039717).

24 novembro 2009

ACERCA DOS «EMERGENTES» E DE «UM PONTAPÉ NO CÃO»....

Não existe só uma escola de emergentes. Mark Driscoll distingue quatro:
(1) os mais liberais (ou revisionistas) que seguem Brian McLaren e que pretendem reinterpretar a esperança cristã em termos de uma visão para esta sociedade e esta vida.
(2) Depois há os que são evangélicos, num sentido lato do termo, mas que querem explicar a mensagem em linguagem mais relevante, apropriada para uma época pós-moderna.
(3) Depois há os que não querem mudar nada a nível das doutrinas particulares ou denominacionais, mas que querem usar estilos de culto e formas externas mais apropriadas para a geração mais jovem (a «X» e tudo o que veio depois!).
(4) Finalmente há os reformados, ainda calvinistas na sua teologia, mas que querem formular a sua doutrina específica em linguagem e estilos de culto relevantes para a nossa geração. Mark Driscoll (que ainda não tive tempo para apreciar bem) é destes últimos.

Se alguma vez aceitasse classificar-me como «emergente» (com os meus 59 anos, estou em desvantagem!), creio que seria nesta última escola que me colocaria.

A primeira escola emergente está em crise teológica séria. Numa entrevista que se pode ouvir no You-Tube (“Museum of Idolatry”, www.youtube.com/watch?v=8soufsX2fbk), McLaren afirma que, de acordo com o ensino tradicional sobre o inferno, Deus exige dos crentes aquilo que Ele próprio não é capaz de fazer. Em última análise não é diferente dos reis deste mundo, porque eles fazem valer a sua posição pela violência e pela coerção. Na visão tradicional, Deus efectivamente faz o mesmo: faz prevalecer o Seu Reino pela força.

Mas dos crentes exige mais do que isso. Exige que perdoem incondicionalmente, amando os seus inimigos até ao fim.

Citando um outro teólogo, cujo nome não revela, McLaren diz que Deus não pede a um homem crente que, para perdoar a sua mulher, dê primeiro um pontapé no cão, descarregando assim a sua ira. Mas a visão tradicional parece estar a dizer que, Deus, para nos perdoar, tem que dar um pontapé em Outro, no nosso lugar!

Quando faz afirmações chocantes, McLaren tem o hábito de se esconder atrás de personagens fictícias - ou outros teólogos que não nomeia. Também costuma dizer que está a aprender e a evoluir – nada do que diz representa uma posição final sobre um assunto. Mas, se cita outros, torna-se evidente que é porque ele próprio neste momento quer tomar posição. E é neste termos desrespeitosos, para não dizer blasfemos, que fica posta em causa a doutrina (que não é só a tradicional, mas a bíblica – ver, entre muitos mais textos, 1 Pedro 2:24) da morte expiatória de Cristo, o nosso substituto!

18 novembro 2009

«EMERGENTES» DIVERGENTES: UM PROBLEMA TEOLÓGICO SÉRIO

Em Outubro de 2008 sugeri neste blog que os «emergentes» do cristianismo eram elementos incómodos no nosso meio, mas que nos desafiavam a ser mais relevantes na aplicação da verdade da Bíblia. Comparei-os com John Howard Yoder, no século vinte, e Frederick William Robertson no século XIX. Mal sabia na altura que já estava a «fervilhar», especialmente nos Estados Unidos, uma polémica entre os «emergentes» e os seus críticos, que atinge mesmo o cerne da nossa mensagem. Tem a ver com as doutrinas bíblicas do castigo eterno dos que morrem sem conhecer Jesus e com a expiação de Cristo, o nosso substituto.
Não cito nestas postagens nada que não venha directamente da boca (palestras no You-Tube) ou dos escritos de Brian McLaren (extractos dos seus livros), o mais conhecido e mais citado dos «emergentes».
Um aluno meu, que leu o blog e comentou favoravelmente na altura, admira bastante a visão «emergente» da igreja. Foi a primeira pessoa (sem incluir a minha esposa!) com quem partilhei as minhas descobertas acerca da doutrina de McLaren. Como os materiais que citei estão todos em inglês, ele disse-me que também não conhecia estes aspectos.
No seu livro «The Last Word and the Word after That» (!), publicado em 2005, apresenta uma série de conversas fictícias entre o pastor - da Igreja Comunitária de Potomac, e a sua filha, em que ela manifesta o seu incómodo pelo facto de os seus amigos que não conhecem Cristo, se morrerem, irem sofrer eternamente no Inferno. O pastor tenta sossegá-la explicando que, além desta posição tradicional exclusivista, existe também o inclusivismo – a posição que admite a possibilidade de pessoas serem salvas através de Cristo, com base apenas na luz que receberam (sem necessariamente aceitarem explicitamente Cristo como Salvador). A filha primeiro reage positivamente, mas depois queixa-se de que isto não abre a possibilidade de salvação para muitas mais pessoas.
A seguir o pai diz que há crentes que são condicionalistas – que acreditam que o inferno pode ser um castigo limitado no tempo, de acordo com os merecimentos da pessoa. Mesmo aqui, o sossego que isto parece trazer à mente da filha dura pouco: acha que foi um desperdício Deus criar tantas pessoas com a finalidade de as destruir permanentemente.
A seguir a filha descobre o universalismo – a ideia de que todos serão salvos – hipótese esta que seu pai, pelo menos abertamente, nunca admitiria. O pai consola-se a pensar que, mesmo que a sua filha seja universalista, pode ser crente. Mas depois pensa que, mesmo sendo crente, ela não poderá ser membro da Igreja Comunitária de Potomac, que ele pastoreia. As suas próprias dúvidas (as do pai) são secretas – mas sabe que, se for honesto, a sua própria posição está em causa também.

Sobre o tema esta conversa o texto bíblico pronuncia-se claramente. João 3:36, na linha de muitas outras passagens do NT, diz: «Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece».

Para a semana, retomo este assunto, interrompendo mais uma vez os meus «Retalhos da Vida de um Pastor».

10 novembro 2009

QUANDO O PASSADO AMARRA......

Estamos em 1992. Os jovens realizam um pequeno acampamento para unir e dinamizar os jovens da igreja. Querem cobrar pouco aos participantes e não conseguem cobrir por inteiro os custos do acampamento. O pastor, que os aconselhara a cobrarem um pouco mais, agora tem que apelar à liderança da igreja para que, numa atitude de misericórdia, esta entre com o valor necessário para cobrir a dívida. Um PDP? (Ver postagem anterior). Sem dúvida!

O que acontece dentro de pouco tempo? O assunto é levado à assembleia da igreja e um membro da liderança diz que a igreja não pode e não deve pagar a dívida. Ao ser votada, a sua posição ganha por maioria. Ainda é PDP? É – porque a nível particular alguns membros da igreja podem cobrir a dívida, e os jovens podem ser ajudados a fazerem uma administração melhor da próxima vez.

Mas..... alguém que trabalha muito com os jovens não concorda com a decisão. Segue-se uma «greve» aos cultos e à Escola Dominical durante um período de algumas semanas. São eles que querem a «greve» - ou é a pessoa que os acompanha de perto?

Aqui já temos um PD que não é «P»!

E, sem entrar em pormenores, vem a transparecer que há um PDNR que vêm do passado, já bastante distante.

Há várias razões que podem transformar qualquer PD em PDNR. Uma é quando a pessoa não assume a sua culpa e recusa submeter-se à disciplina (ver postagem anterior). Outra é quando assume de uma forma aparente, mas no seu íntimo acha que não devia estar a ser disciplinada. Outra é quando o pastor foge a questões de disciplina, sabendo que são difíceis de resolver (caso comum!). Outra é quando a igreja não consegue pôr-se de acordo e os mecanismos do sistema democrático levam a um impasse (caso comum também!). Ainda há outra possibilidade (muito menos comum): a igreja em cujas mãos está o processo de disciplina deixa de existir.

Os PDNR do passado podem agravar as situações do presente de tal maneira que, se ao tentarmos a resolução destas não os detectamos, não percebemos o ambiente de guerra que existe à nossa volta e não conseguimos fazer nada para o acalmar. As duas partes, afectadas directamente pelos seus PDNRs, ficam acesas com uma paixão descontrolada – e que não parece ter nada a ver com os problemas concretos do momento.

E isto é porque os mais imediatamente envolvidos estão na realidade a viver mais o seu PDNR do passado do que o PDP do presente!

No caso, um dos lados tinha sofrido disciplina da igreja anos antes, mas agora justificava aquilo que tinha feito e que, na altura, tinha sido motivo da disciplina. Nós sabíamos dessa situação. O outro (e isto não sabíamos ainda) tinha sido objecto de disciplina numa igreja que, a seguir, deixou de existir.

Os ânimos exaltam-se e ninguém consegue fazer nada para os apaziguar. Considera-se que o pastor deve conseguir. Mas não consegue. E é uma ironia curiosa que, ao constatarem que o pastor não consegue, ambas as partes - que estão em conflito uma com a outra - põem-se de acordo num ponto só. O pastor deve ser despedido! E, quando tentam e não conseguem (uma parte da história que não vou contar aqui), põem-se de acordo em sair da igreja, levando muitos outros com eles....

28 outubro 2009

Os problemas de disciplina (PD) na igreja... especialmente os não resolvidos (PDNR)....

Agora voltamos aos «Retalhos da Vida de um Pastor»!

Esta postagem é fruto de alguma experiência pastoral, tem a ver com realidades que se manifestam em todas as igrejas – e, através dele e o diálogo resultante, com aquilo que podemos aprender uns dos outros. Tentarei evitar pormenores demasiado delicados para serem partilhados. As siglas PD significam problemas de disciplina (na igreja). Podem ser qualificados, entre outras maneiras, como pequenos (P), desnecessários (D), resolvidos (R, ou não resolvidos (NR).

Não vou ensinar aqui como é que se faz disciplina da igreja. Os meus textos de base são Mateus 18:15-20 e 1 Cor. 5. Tratam de praticamente tudo o que é preciso dizer à partida.
Os «PD»s em geral têm a ver com as áreas clássicas: sexo, dinheiro e poder.
Hoje, neste blog, os «PD» mais focados vão ser os não resolvidos, os PDNR.

As igrejas evangélicas às vezes gostam de «crescer» umas à custa das outras. Costumam dizer que não. Mas no fundo, se puderem (de preferência sem darem muito nas vistas) – muitas vezes gostam.....
Por exemplo, uma pessoa é disciplinada por uma igreja de outra denominação. Vem contar o tipo de disciplina que foi exercida e diz que é obviamente um problema pequeno (PDP): quem é que se lembraria de disciplinar uma pessoa por um problema desses?
Uma vez um elemento que frequentava a nossa igreja, e que estava numa situação dessas, veio falar do pequeno problema que tinha levado à sua exclusão de outra igreja. Queria passar a ser membro da nossa igreja, onde os seus dons seriam úteis. De facto considerava a disciplina que tinha sido exercida completamente desnecessária (um PDD!).
Expliquei-lhe que todo o PD tem a ver com o corpo de Cristo em geral, não só com uma denominação. Transitar de uma denominação para outra não resolve um problema. Disse-lhe que ia contactar o pastor da sua igreja, para poder avaliar melhor a situação. Marquei primeiro uma conversa com o pastor. Depois, os dois pastores marcámos uma conversa com a pessoa em questão.
O problema é que, depois dessa confrontação com a pessoa, vi claramente que o problema de disciplina nem era pequeno nem era desnecessário! Na conversa inicial, que a pessoa tivera só comigo, parecera! Mas a sua dificuldade não tinha sido minimamente resolvida. Embora simpatizando com a pessoa, vi que ela não estava disposta a fazer um jogo aberto e franco com outros que tinha prejudicado. Para os dois pastores a conclusão era clara: para já, a pessoa não poderia ser membro de uma igreja nem de outra.
E, se eu tivesse aceite a pessoa, ignorando o seu «pequeno problema», para acrescentar mais um elemento à lista de membros da minha igreja? Ou se o outro pastor tivesse «feito vista grossa», dizendo que o problema já não tinha importância, para ter a sua ovelha de volta ou para que não fosse «perdida» para a sua denominação?!.
Ficámos com um problema que não se resolveu. Mas, para a integridade das nossas respectivas congregações, não terá resultado algum benefício, do facto de como pastores termos marcado posição em harmonia um com o outro? (AP)

20 outubro 2009

CALVINO ENCONTROU ERROS NOS TEXTOS BÍBLICOS?

Na sua resposta à minha última postagem, o John (Pallister!) cita um artigo interessante de John Perry que dá evidência de nem Lutero nem Calvino terem acreditado na inerrância bíblica, no sentido em que esta é geralmente entendida hoje. Sobre Lutero não comento: já muitas pessoas, que em outras matérias o respeitam muitíssimo, encontraram incoerências deste tipo na sua obra.

Em relação com Calvino, devo dizer que alguma admissão que ele faça, de um texto bíblico ser menos do que «inerrante», além de ser extremamente rara, retira pouco da avaliação geral que o reformador faz das Escrituras como puras e perfeitas.

Por exemplo, o artigo de Perry só cita um exemplo relacionado com Calvino. Cita o seu comentário sobre Mateus 2:1-6, em que o reformador diz que a «estrela» que conduziu os magos a Jesus deve ter sido um cometa. Diz que não há impropriedade no facto de Mateus, que usa a linguagem popular, o chamar incorrectamente uma estrela.

Este não é um problema no texto da Bíblia que cause problemas aos que defendem a inerrância hoje, uma vez que eles admitem que Deus Se comunica algumas vezes em linguagem popular, fazendo descrições da natureza com base na observação («Declaração de Chicago sobre a Inerrância da Bíblia», Artigo XIII). Na minha opinião Calvino teria sido mais fiel ao seu próprio princípio se não tivesse usado aqui a palavra «incorrectamente». Não havia na sua época um debate aceso sobre a questão da inerrância que o obrigasse a escolher uma palavra melhor neste ponto! Mas dizer, como alguns (não incluindo Perry, que de facto não o diz) que há muitas passagens deste tipo em Calvino seria um exagero imperdoável. Dizer que Calvino tem um conceito de inspiração ou autoridade que admita uma margem de erro na Bíblia é também completamente falso.

Já ouvi dizer, por exemplo, que Calvino negava que Pedro tivesse sido o autor de 2 Pedro. De facto o que ele diz sobre o assunto é o seguinte:
«Se for recebida como canônica, temos que admitir Pedro como o seu autor, uma vez que tem o seu nome inscrito, e ele também testemunha que viveu com Cristo: e teria sido uma ficção indigna de um ministro de Cristo, ter-se apresentado como outro indivíduo. Daí concluo que deve ter procedido de Pedro, não no sentido de ele próprio a ter escrito, mas que alguns dos seus discípulos puseram em forma escrita, por ordem dele, aquelas coisas que a necessidade dos tempos exigiam. Porque é provável que já estivesse numa idade muito avançada, porque ele próprio diz que está perto do fim» (Comentário sobre II Pedro).

Haverá algum «inerrantista» de hoje que não aceite, pelo menos como princípio, este tipo de raciocínio cuidadoso?

Calvino também acha que Mateus 27:9 devia citar o nome do profeta Zacarias e não o de Jeremias. Mas não diz se é um problema do texto original – ou se é um problema textual surgido depois. Com uma exemplar humildade afirma que não sabe como é que o nome de Jeremias se introduziu aqui.

O exegeta sério de todos os tempos, antes e depois de ter sido inventada a palavra «inerrante», sabe muito bem que numa determinada altura surgem aparentes discrepâncias (as que encontro pessoalmente são poucas e pequenas) que não conseguimos resolver. E que a nossa maior sabedoria nesses casos não é abandonar uma doutrina que a própria Bíblia ensina. É dizer: «neste caso, não sei»!.

13 outubro 2009

Calvino ainda fala - 500 anos depois!

Interrompendo a série de «retratos da vida de um pastor», gostava de comentar um acontecimento em que participámos na celebração dos 500 anos desde o nascimento do grande reformador.
No sábado, numa série de debates organizados pela Igreja Presbiteriana na Universidade Lusófona, participei, a convite do David Valente (agora o nosso sobrinho por afinidade) sobre o tema de Calvino, exegeta das Escrituras. Nessa sessão, o Pastor José Manuel Leite e o nosso amigo Tim (Dr. Timóteo Cavaco!), também participaram.
Em primeiro lugar devo confessar que o Pastor Leite tinha preparado a sua participação de uma maneira muito mais completa do que eu. Tive que lhe agradecer a sua brilhante exposição – em que ele explicou ponto por ponto aquilo que eu dissera só resumidamente.
Só que no princípio o Pt. Leite disse que se sentia menos calvinista «desde» que fizera esta pesquisa. Interrogado sobre este desabafo, disse que antes de a fazer tinha a ideia de que Calvino era mais liberal! Então eu tive que dizer à assistência que, exactamente por causa dos pontos que o Pt. Leite tinha exposto, me sentia ainda mais calvinista!

Uma das questões levantadas no debate foi a inerrância bíblica: o termo, tendo surgido séculos depois, não é de Calvino mas, no meu entender, o conceito é. Calvino acreditava que a Bíblia, como originalmente fora dada, está livre de erros. Não encontro nenhuma passagem em Calvino em que o reformador admita a possibilidade de terem existido erros nos manuscritos originais da Bíblia.
Será que algum leitor deste blog já encontrou alguma?

Depois a Pastora Eva Michel fez uma brilhante e comovedora exposição das doutrinas da eleição e da predestinação (e mesmo a reprovação!) em Calvino – e em Romanos 8 e Efésios 1 – referindo-se ao contexto de sofrimento injusto em que as palavras originalmente foram escritas. Teríamos ficado encantados se ela não tivesse dito também que, embora reconhecesse que Calvino acreditava nestas doutrinas, ela não acreditava!

O pastor Manuel Pedro Cardoso, expondo a doutrina calvinista da igreja, referiu que dos «cinco pontos» do calvinismo se ficava só pelo primeiro (a depravação total do homem). Só que neste caso trata-se de um colega e amigo que conhecemos e respeitamos há muitos anos e sabemos que, mesmo nos restantes quatro pontos, não estará tão longe das convicções do reformador como os outros prelectores aparentemente estão!

Surgiu um momento de tensão – mesmo conflito – no debate quando um dos pastores presbiterianos presentes declarou que, na sua convicção, haverá oportunidade, consciente ou inconscientemente, para todas as pessoas aceitarem Cristo, mesmo depois da sua morte, e que Deus na Sua graça terminará por salvar todos. De facto foi isto o que alguns professores do seu Seminário, sob a influência da Alta Crítica e de Karl Barth, lhe ensinaram, já há longas décadas.

A Celeste – a minha esposa – protestou com bastante emoção contra esta afirmação (que de qualquer forma não vinha muito a propósito!), com base em afirmações da Bíblia que dizem claramente o contrário.

Sentimo-nos muito encorajados quando o nosso bom amigo, Manuel Pedro Cardoso (com cujas posições nem sempre concordamos!), também confrontou o seu colega, tanto publicamente como particularmente depois, explicando que é da essência do Evangelho a afirmação de que só é salvo aquele que, nesta vida, deposita a sua confiança em Cristo!

Foi bom estarmos e podermos participar; e foi bom que, apesar de tudo, Calvino e as Escrituras, que ele tão rigorosamente defendeu, ainda falaram mais alto do que nós!

02 outubro 2009

COISAS FEIAS ....... QUE VINHAM DE LONGE

Quando chegámos para pastorear a Igreja Baptista de Caldas da Rainha, não foi possível não percebermos que os jovens da igreja tinham votado contra a nossa vinda. É verdade que não nos conheciam.... mas a questão principal é que havia um seminarista a colaborar com a igreja que eles, muito naturalmente, gostavam de ter podido manter. Mas os adultos disseram que a igreja tinha as suas dificuldades, conflitos internos, etc., e seria preciso vir um pastor mais maduro.....
Fomos surpreendidos, a seguir, por uma série de almoços organizados por várias famílias para os jovens: um grande empenho, sem dúvida, em tentar conquistar a simpatia desses para o pastor que lhes tinha sido imposto.....
Nessas ocasiões não tínhamos outra hipótese a não ser apresentarmo-nos como somos. Mas a verdade é que não éramos exactamente aquele modelo de obreiros dinâmicos, extrovertidos e gregários que os jovens devem ter tido em mente!
Influenciados pela nossa experiência no GBU tentámos organizar estudos bíblicos para eles. Mas ficámos com a impressão de que consideravam os estudos bíblicos uma «seca». Desafiámos uma estudante na universidade da cidade a tentar organizar um GBU: disse que não queria envolver-se em nenhuma actividade deste tipo até porque só poderia prejudicar a sua situação a nível de notas!
Alguns deles faltavam sem aviso nos domingos de manhã – mesmo tendo responsabilidades na Escola Dominical! Os adultos lamentavam isto, mas achavam que devíamos conseguir agir «pela positiva» para que isto não acontecesse. Repreender, nem pensar!
Um problema que se punha era o de namoros entre crentes e descrentes. E não parece ter havido orientações claras sobre a questão do sexo pré-matrimonial. Ao expormos as Escrituras, falámos claramente sobre estas questões. E cada vez mais percebemos que o nosso ministério não era apreciado.
Ao longo dos primeiros 18 meses um sector na igreja decidiu que, uma vez que não estávamos a conseguir conquistar os jovens, não éramos os líderes certos as pessoas certas para a igreja. Em Março de 1993 surgiu a primeira tentativa de nos mandar embora, em grande parte para tentar segurar um grupo de jovens que se estava a mostrar cada vez mais “inseguro”. Em retrospectiva, não é difícil compreender a posição que esse sector tomou. (As manobras que usaram, isso é outra história!). É evidente que nenhuma igreja gosta de ver os seus jovens desaparecerem. Só que me parece que, se os adultos se tivessem colocado ao lado do pastor e do ensino bíblico, sem equívocos, podíamos ter trabalhado juntos para a mudança lenta de mentalidades. E isto afinal seria a única maneira viável de, no futuro, a igreja ter um testemunho credível para a juventude.
Mas, quando a verdade incomoda, é mais fácil querer passar ao lado dela!

Mais tarde verificámos que a nossa maior dificuldade, na área da ética sexual, não era com os jovens, mas sim com os adultos e até os idosos! Escândalos na área da moralidade sexual tinham manchado o testemunho da igreja em décadas passadas. Situações essas muito piores do que aquelas que nós estávamos a tentar resolver. O resultado é que, quando queríamos que os irmãos de mais idade manifestassem alguma convicção firme nesta área, muitos deles não eram capazes.

Soubemos também que esta cidade tinha uma cultura específica em questões sexuais que remonta pelo menos ao século XIX!

Acrescento alguns extractos, recolhidos num blog da museóloga, Maria da Conceição Parreira Colaço:

«Com a malandrice é a caracterização actual, no mercado da louça das Caldas, das canecas de faiança que integram no seu interior dois tipos de motivos: ou um pénis em erecção, ou um montículo de fezes.

«Ideia do rei D. Luís, que terá feito produzir este motivo, com carácter privado, na Real Fábrica de Faianças de Manuel Gomes, o Mafra, nas Caldas da Rainha, na segunda metade do século XIX, foi seu executor o operário João Pereira. É esta a informação fornecida em 1987 a Aida Sousa Dias e Rogério Machado:
«“Herculano Elias conta-nos o episódio do aparecimento dos falos na loiça das Caldas: ‘O rei D. Luís, visitando a fábrica de Manuel Cipriano Gomes (O Mafra), pede-lhe que invente um objecto divertido que faça distrair os seus amigos. O velho Mafra, um pouco embaraçado, incumbiu o seu operário João Pereira, por alcunha ‘O Bandalho’, de atender aquela pretensão do monarca. João Pereira, com as técnicas da época inventou um falo, monocromático, tendo na base aplicações que fazem lembrar a técnica de imitação do musgo.. »
Com esta informação não é muito difícil percebermos o carácter específico dos demónios que pairavam por aqui... e que incentivavam os crentes com anos de vida na igreja a quererem transigir.

(7ª postagem na série «Retalhos da Vida de um Pastor» de Alan Pallister)

22 setembro 2009

Quando faltam palavras....

«Lé, lé, pá».
Normalmente era tudo o que o nosso amigo, Sr. C., conseguia dizer, depois de um AVC severo que interrompeu a sua vida profissional activa como dono de uma pedreira.
A seguir a essa doença, a sua esposa passou por muitas dificuldades e, através delas e pelo testemunho de vizinhos crentes, chegou à fé em Cristo, passando a ser membro da igreja no tempo do pastor que me antecedeu. Na altura, dois dos seus filhos também fizeram profissão de fé em Cristo. E desde então ela continua incansável no seu testemunho a familiares e amigos.
Uma das alegrias dos meus primeiros anos de ministério pastoral foi a possibilidade de dirigir pequenas reuniões em lares, na Dagorda de Óbidos e na Lourinhã, em que a principal iniciativa em convidar pessoas para participar era dessa irmã.
O marido era acompanhante nas viagens e, frequentemente, ao passar por algum lugar que lhe chamava a atenção ou trazia recordações, dizia: «lé, lé, pá!». Dizia-o, como é natural, com entoações diferentes, conforme a situação. A esposa era a «tradutora» que percebia se estava a falar sobre primos em segundo grau que não tinham visitado durante 11 anos ... se estava a lembrar um acidente entre um carro e uma motorizada .... ou se era só que achava bonita a cor da tinta de alguma casa! Normalmente, ela sempre chegava a compreender e a interpretar bem... não percebíamos como. Houve só uma situação ou outra em que mesmo ela teve que desistir, para grande frustração dele!
As tentativas de recuperação da fala do nosso amigo, após a sua doença, não tinham dado grandes resultados. Na questão de respeito pela palavra de Deus, e gosto de a ouvir, no entanto, não há dúvida de que deu alguns bons passos em frente.
Houve tempos em que ele teve uma atitude bastante autoritária, apesar das suas limitações.
Houve tempos em que nos surpreendia com uma variação no seu discurso: «lé, lé, pá, caraças!», por exemplo. Mas o Senhor foi fazendo a Sua obra.
Quando cantávamos nas reuniões, a sua capacidade de pronunciar as palavras melhorava. No fim de cada reunião em que ele estivesse presente era obrigatório que cantássemos o coro:
«Em tuas mãos, em tuas mãos, quero, oh Deus, me colocar em tuas mãos.....».
Isto era, segundo contava a sua esposa, com emoção, por causa de um dia em que o marido lhe estava a dizer, com uma ênfase especial: «lé, lé, pá!». Ela teve alguma dificuldade em compreender a razão de tanto entusiasmo. Mas, a seguir, o marido começou a cantar: «Em tuas mãos, em tuas mãos....» E conseguiu chegar ao fim do coro pronunciando bem todas as palavras! No fim disso foram os dois que choraram e agradeceram ao Senhor!
Há uns 5 anos este nosso irmão faleceu. No dia do seu funeral houve oportunidade para a sua esposa explicar bem alto e com toda a convicção, para largas dezenas de assistentes, a maioria de fora do nosso meio, aquilo que o Senhor tinha feito nas suas vidas.
Depois no céu, sem qualquer dúvida, não hão-de faltar palavras!
(mais um «retalho da vida de um pastor» de Alan Pallister)