12 janeiro 2010

Dava-nos jeito era um missionário...

O meu antecessor no ministério pastoral em Caldas da Rainha esteve aqui cinco anos. Além de ser um evangelista e doutrinador de reconhecido valor, tinha duas vantagens óbvias. Uma era que, sendo brasileiro, o português era a sua primeira língua. A outra era que, sendo missionário de uma Junta do seu país, tinha o seu sustento garantido, sem a igreja local ter que arcar com essa despesa. Só que, ao aceitar o trabalho de pastorear uma igreja local, deixara de se concentrar no ministério para o qual tinha sido enviado pela sua Junta – que era o trabalho pioneiro de implantação de igrejas.
Quando chegámos aqui, com os nossos quatro filhos, os responsáveis admitiram que o salário oferecido era insuficiente - mas disseram-nos que, logo que a residência pastoral se construísse (e essa era a primeira parte do projecto de construção do novo templo), estaríamos livres de ter que pagar renda de casa, o que iria tornar a situação mais sustentável.
Sendo eu estrangeiro, poder-se-ia pensar que tínhamos alguma garantia de sustento de fora – o que no caso não era verdade.
Não foi preciso estar aqui muito tempo para verificar que o plano ambicioso de construção do novo templo tinha mais a ver com cálculos baseados no crescimento numérico aparente - concretizado e previsto - do que com uma avaliação séria da condição espiritual da igreja. A igreja estava dividida por conflitos, e, salvas honrosas excepções, os seus membros tinham uma fraca noção de compromisso com o Senhor da igreja. Tinha quase cem «membros». Mas só foi preciso um trabalho de visitação pastoral de algumas semanas para percebermos que cerca da metade desses membros tinham pouca compreensão do significado de um compromisso com Cristo. Muitos de facto pareciam mais adeptos da pessoa do meu antecessor do que propriamente discípulos de Cristo.

Uma das primeiras situações que teve que ser revista foi o plano de se construir primeiro uma residência pastoral e, só depois, iniciar a construção do local de culto. Decidiu-se optar pela construção de tudo «no tosco» - o que significava que o terminar a residência pastoral iria demorar muitos anos! Mesmo assim as pessoas começaram a afastar-se pouco a pouco do projecto em si – compreendendo que ultrapassava de longe as possibilidades da igreja.
Tivemos que nos contentar com o pequeno salário inicialmente oferecido, sem perspectivas a curto ou a médio prazo de ficarmos livres do pagamento de uma renda (uns 40% desse valor)!
Como já referi, houve uma saída substancial de membros da igreja, incluindo a maior parte dos jovens, em 1993. Depois a igreja que permaneceu optou por adquirir uma outra propriedade mais pequena e fazer um plano mais realista. Mas, com pouco mais de cinquenta membros, a maioria deles com rendimentos baixos, mesmo esse plano, ao ser bem apreciado, tornou-se um desafio manifestamente ambicioso demais para as nossas possibilidades.
Ainda por cima, o pastor tinha duas desvantagens, que foram sendo cada vez mais sentidas por alguns: uma era que, sendo estrangeiro, não se conseguia livrar totalmente do seu sotaque. A outra, curioso paradoxo, é que não era missionário!
De facto eu pensava que era! Tinha vindo de outro país com um sentido de chamada para fazer o trabalho do Senhor: sentia-me «enviado» por Deus. Mas tornou-se óbvio que ser «missionário», na definição aceite aqui, significava «receber o sustento de fora». Ora, o que dizer de um estrangeiro sustentado pela igreja local – cujo salário, embora insuficiente, não permitia que a igreja acumulasse valores para o seu projecto de construção?

Não era de admirar que, no último domingo do mês, quando o tesoureiro da igreja me entregava o cheque para pagamento do salário, dissesse com frequência, primeiro com alguma candura, mas depois com vontade manifesta de me incomodar:

«Dava-nos jeito era um missionário!».