02 setembro 2008

O DEUS DE DAWKINS

«Não creio realmente ser arrogante, mas tenho pouca paciência para as pessoas que não partilham da mesma humildade que eu perante os factos».

Esta frase, do famoso cientista ateísta Richard Dawkins, é citada por Alistair McGrath, no seu livro «O Deus de Dawkins», publicado em inglês em 2005 e em português (Aletheia Editores) em Janeiro de 2008.
Encontrei o livro «por acaso», quando um dia estava a fazer as minhas compras no «Modelo». Quantas vezes acontece encontrarmos um livro de um pensador evangélico tão distinto e actual como McGrath, num formato atractivo, numa boa tradução, a um bom preço, num dos nossos hipermercados? (Ainda por cima normalmente faço as compras em outro hipermercado!).
A leitura do livro deixou-me fascinado! O autor, além de ser professor de Teologia Histórica em Oxford, tem formação superior em ciências. Quando, em 1977, leu «O Gene Egoísta» de Richard Dawkins, já foi desafiado a escrever uma resposta, desde um ponto de vista cristão. E, embora McGrath não se sentisse capaz de o fazer na altura, a ideia ficou, e publicou o livro em 2005!
O problema com Dawkins é que argumenta de uma forma muitas vezes brilhante as suas posições em questões científicas mas, quando se dirige à questão de Deus, usa argumentos bombásticos e simplistas (um pouco à maneira de «Porque não sou Cristão», de Bertrand Russell). McGrath examina e critica estes argumentos de uma forma brilhante e equilibrada - e acha-os em falta.
Um aspecto que vai surpreender o leitor atento de «O Deus de Dawkins» é o facto de McGrath mostrar que o darwinismo em si não leva necessariamente ao ateísmo. Darwin não era coerentemente ateísta: se veio a rejeitar o Deus do cristianismo, tomou esta atitude por causa de outros factores (como a morte de uma filha, por exemplo) e não por causa das suas posições sobre a evolução.
Um dos primeiros teólogos evangélicos a admitir a possibilidade de conciliar o processo evolutivo e os dados da Bíblia foi Benjamin Warfield - que dificilmente alguém argumentará não ter sido evangélico ou conservador:
«Se Darwin considerava o processo evolutivo como estando alicerçado nas variações do acaso, e que o destino subsequente era determinado por princípios gerais, Warfield argumentava que era absolutamente correcto olhar para o processo evolutivo como sendo guiado pela divina providência» («O Deus de Dawkins», p. 101).
E James Orr, um dos autores e fundadores de «The Fundamentals» (origem do termo «fundamentalista»!), defendeu uma posição semelhante. Ao mesmo tempo, muitos outros cristãos argumentaram que o darwinismo e a doutrina bíblica da criação eram absolutamente incompatíveis.
O autor destas linhas tem uma posição mais criacionista do que isso! Não partilho a abertura para o darwinismo de Warfield, Orr ou McGrath. Mas não os considero «liberais» por causa disso: considera que o que está em causa aqui são posições diversas que é possível sustentar, sem deixar por isso de ser considerado evangélico.
Mas a razão principal porque menciona neste blog o livro de McGrath não é por causa do debate entre o criacionismo e o evolucionismo. É por causa do debate entre o ateísmo e o teísmo – e nomeadamente o teísmo cristão. «O Deus de Dawkins» para mim é um livro magistral para quem deseje dialogar com os ateístas ou agnósticos do nosso tempo.
Por causa disso estou extremamente feliz por ter mudado de hipermercado nesse dia!