16 setembro 2009

«EU ACHO QUE PAULO NÃO TINHA RAZÃO QUANDO ACHAVA QUE DEUS ACHAVA QUE ERA DESSA MANEIRA, PORQUE EU ACHO QUE DEUS ACHA QUE É ASSIM....»

De 1971 a 1973 estudei teologia na Faculdade em Cambridge. A abordagem dos professores em geral era liberal: não se considerava o texto bíblico como veículo objectivo da revelação de Deus, nem como última referência em qualquer questão (nem de «fé e prática», nem de qualquer outra). Deus na altura providenciou recursos para me ajudar – teólogos conservadores visitantes, professores mais novos ainda a fazerem os seus doutoramentos, e um leque extraordinário de livros dentro da mesma perspectiva teológica. O resultado foi que eu, e a maior parte dos meus colegas que tinham convicções semelhantes, fomos capazes de enfrentar os desafios e manter-nos numa linha de respeito e submissão às Escrituras como Palavra de Deus.
O que eu não contava era, 20 anos depois, vir pastorear uma pequena igreja baptista em Portugal e encontrar o mesmo tipo de raciocínio liberal em alguns membros da congregação! E estes não tinham os recursos académicos de que os professores de Cambridge dispunham.
Havia na igreja, por exemplo, quem citasse as posições de Paulo ou de João como sendo «opiniões» («os apóstolos achavam....»): e quem assim citava a sua própria opinião («ele achava»), que podia ser diferente e, sendo mais actual, teria até vantagem sobre as dos apóstolos.
Adoptei desde cedo o método expositivo, tratando as passagens dos livros da Bíblia por ordem e tentando não omitir aquilo que podia parecer menos oportuno. Surpreendeu-me agradavelmente o número de ocasiões em que o texto bíblico, previamente escolhido, tinha elementos muito concretos de ensino para as necessidades que a congregação estava a enfrentar. Muitas vezes falava para mim primeiro enquanto me estava a preparar, corrigindo erros e dando melhores orientações para a minha vida.
Algumas vezes podia detectar os pontos de contacto com os problemas da congregação antecipadamente, durante a preparação das mensagens. Mas muitas vezes era só depois de ter pregado que percebia a relevância daquilo que Deus tinha colocado à nossa frente nesse dia. Podia até dar-se o caso de eu pensar que a relevância da passagem tinha a ver com determinadas situações na vida de algumas pessoas – mas, depois, descobrir que de facto estava a falar muito mais para outras, nas quais não tinha pensado.
Não será preciso acrescentar que uma das acusações mais frequentes que tive de enfrentar era a de estar a escolher os temas e direccionar as mensagens para atingir membros da congregação!
Mas, algumas vezes, o tema era, por exemplo, o facto de a salvação ser inteiramente da iniciativa da graça divina, não tendo os nossos méritos e esforços qualquer valor para a obtermos. Tema bastante fundamental no que diz respeito às nossa convicções evangélicas! Só que depois alguém na congregação achava que era muito importante aquilo que nós fazíamos: e que não podíamos atribuir a salvação só a Deus.
Aconteceu mais do que uma vez, depois de eu ter exposto a passagem salientando o seu ponto principal, que o dirigente do culto, antes de anunciar o hino final, em duas ou três frases bem pensadas e elaboradas, contradisse nitidamente o ponto principal da passagem que tinha sido exposta. Mas, como a pessoa estava na liderança da igreja há anos, e eu era novo em comparação, tinha que me calar, não chamando a atenção à congregação para a contradição que lhe tinha sido transmitida!
(6ª postagem na série «Retalhos da Vida de um Pastor», de Alan Pallister)