02 outubro 2009

COISAS FEIAS ....... QUE VINHAM DE LONGE

Quando chegámos para pastorear a Igreja Baptista de Caldas da Rainha, não foi possível não percebermos que os jovens da igreja tinham votado contra a nossa vinda. É verdade que não nos conheciam.... mas a questão principal é que havia um seminarista a colaborar com a igreja que eles, muito naturalmente, gostavam de ter podido manter. Mas os adultos disseram que a igreja tinha as suas dificuldades, conflitos internos, etc., e seria preciso vir um pastor mais maduro.....
Fomos surpreendidos, a seguir, por uma série de almoços organizados por várias famílias para os jovens: um grande empenho, sem dúvida, em tentar conquistar a simpatia desses para o pastor que lhes tinha sido imposto.....
Nessas ocasiões não tínhamos outra hipótese a não ser apresentarmo-nos como somos. Mas a verdade é que não éramos exactamente aquele modelo de obreiros dinâmicos, extrovertidos e gregários que os jovens devem ter tido em mente!
Influenciados pela nossa experiência no GBU tentámos organizar estudos bíblicos para eles. Mas ficámos com a impressão de que consideravam os estudos bíblicos uma «seca». Desafiámos uma estudante na universidade da cidade a tentar organizar um GBU: disse que não queria envolver-se em nenhuma actividade deste tipo até porque só poderia prejudicar a sua situação a nível de notas!
Alguns deles faltavam sem aviso nos domingos de manhã – mesmo tendo responsabilidades na Escola Dominical! Os adultos lamentavam isto, mas achavam que devíamos conseguir agir «pela positiva» para que isto não acontecesse. Repreender, nem pensar!
Um problema que se punha era o de namoros entre crentes e descrentes. E não parece ter havido orientações claras sobre a questão do sexo pré-matrimonial. Ao expormos as Escrituras, falámos claramente sobre estas questões. E cada vez mais percebemos que o nosso ministério não era apreciado.
Ao longo dos primeiros 18 meses um sector na igreja decidiu que, uma vez que não estávamos a conseguir conquistar os jovens, não éramos os líderes certos as pessoas certas para a igreja. Em Março de 1993 surgiu a primeira tentativa de nos mandar embora, em grande parte para tentar segurar um grupo de jovens que se estava a mostrar cada vez mais “inseguro”. Em retrospectiva, não é difícil compreender a posição que esse sector tomou. (As manobras que usaram, isso é outra história!). É evidente que nenhuma igreja gosta de ver os seus jovens desaparecerem. Só que me parece que, se os adultos se tivessem colocado ao lado do pastor e do ensino bíblico, sem equívocos, podíamos ter trabalhado juntos para a mudança lenta de mentalidades. E isto afinal seria a única maneira viável de, no futuro, a igreja ter um testemunho credível para a juventude.
Mas, quando a verdade incomoda, é mais fácil querer passar ao lado dela!

Mais tarde verificámos que a nossa maior dificuldade, na área da ética sexual, não era com os jovens, mas sim com os adultos e até os idosos! Escândalos na área da moralidade sexual tinham manchado o testemunho da igreja em décadas passadas. Situações essas muito piores do que aquelas que nós estávamos a tentar resolver. O resultado é que, quando queríamos que os irmãos de mais idade manifestassem alguma convicção firme nesta área, muitos deles não eram capazes.

Soubemos também que esta cidade tinha uma cultura específica em questões sexuais que remonta pelo menos ao século XIX!

Acrescento alguns extractos, recolhidos num blog da museóloga, Maria da Conceição Parreira Colaço:

«Com a malandrice é a caracterização actual, no mercado da louça das Caldas, das canecas de faiança que integram no seu interior dois tipos de motivos: ou um pénis em erecção, ou um montículo de fezes.

«Ideia do rei D. Luís, que terá feito produzir este motivo, com carácter privado, na Real Fábrica de Faianças de Manuel Gomes, o Mafra, nas Caldas da Rainha, na segunda metade do século XIX, foi seu executor o operário João Pereira. É esta a informação fornecida em 1987 a Aida Sousa Dias e Rogério Machado:
«“Herculano Elias conta-nos o episódio do aparecimento dos falos na loiça das Caldas: ‘O rei D. Luís, visitando a fábrica de Manuel Cipriano Gomes (O Mafra), pede-lhe que invente um objecto divertido que faça distrair os seus amigos. O velho Mafra, um pouco embaraçado, incumbiu o seu operário João Pereira, por alcunha ‘O Bandalho’, de atender aquela pretensão do monarca. João Pereira, com as técnicas da época inventou um falo, monocromático, tendo na base aplicações que fazem lembrar a técnica de imitação do musgo.. »
Com esta informação não é muito difícil percebermos o carácter específico dos demónios que pairavam por aqui... e que incentivavam os crentes com anos de vida na igreja a quererem transigir.

(7ª postagem na série «Retalhos da Vida de um Pastor» de Alan Pallister)